Entendendo a Múltipla Pertença Religiosa

Escrevo em meio a fumaça e o aroma dos incensos trazidos da Índia, enquanto observo o meu altar com diversas divindades das tradições hindus e com outros da tradição cristã, e as divindades dançam ao som de mantras hindu-cristãos. Kali, Krisnha, São Francisco, Jesus, Ganesha, Maria, etc. se encontram não apenas no altar, mas no altar de meu coração.  Portanto, escrever sobre múltiplas pertenças é escrever sobre o que vivo e a maneira que penso o mundo e a espiritualidade.

Múltipla pertença religiosa é um conceito Ocidental para um fenômeno que tem acontecido em toda história e cultura do mundo. A construção da religião no Ocidente está interconectada com a noção de identidade, então, a “religião ocidental” é oposta a “religião oriental”, sempre com a negação do Outro para a formação da identidade. O termo “múltipla pertença religiosa” (daqui para frente MPR) carrega em si um pesado fardo de confusão e conflito, com diversos significados e conceitos dentro da própria academia. É interessante notar que a sua história está emaranhada da história da humanidade, mas não havia sido teorizada propriamente. A MPR é um fenômeno muito comum e visto como positivo em contextos asiáticos, mas é visto negativamente e rotulado como “sincretismo” em contextos coloniais por todo o mundo. Em outras palavras, a MPR não é nada novo, mas vem ganhando destaque pois tem deixado de ser um fenômeno à margem, sendo então, vivenciado por fiéis da “boa religião (cristã)” que tem buscado, em um contexto ocidentalizado, novas formas de realização espiritual (CRIST, 2017, p. 13). O termo “MPR”, embora seja útil muitas vezes para descrever os processos da religião vivida pela modernidade, é carregado de ideologias e categorias ocidentais, como as noções de “pertença” e “religião”, que são estereotipadas pelos estudos religiosos ocidentais.

Na tentativa de mapear alguns tópicos importantes na literatura, Michelle Voss Roberts trabalha três modelos de MPR: i) “os grandes pioneiros” – o primeiro modelo ressalta as tentativas de uma elite de masculina de teólogos cristãos, majoritariamente de ordens monásticas, que buscavam combinar a compreensão ou prática de duas ou mais tradições. A autora menciona figuras como Abhistikananda, Bede Griffiths e Aloysius Pieris, que trabalharam nesse sentido; ii) “prática popular” – Roberts destaca que o segundo modelo é baseado no uso de diferentes ritos ou práticas na própria vida religiosa, sendo isso consciente ou inconsciente, e mais ou menos comunal. Ela nos dá como exemplo o uso de árvores de Natal ou rosários no contexto indiano, ou seja, a incorporação de elementos ou festivais da prática cristã em outra realidade religiosa; iii) “o híbrido” – a visão de Roberts sobre esse modelo é para aqueles que não se encaixam confortavelmente com uma identidade, mas existem em um ponto de intersecção entre tradições. Invocando Homi Bhabha, a autora entende esse movimento de mudança do foco “binário” para outro foco que enxerga o cotidiano da prática e como isso pode desafiar as fronteiras religiosas tradicionais (2010, p. 46-52). Michelle Voss Roberts sumariza seu modelo da seguinte forma: “O primeiro modelo de múltipla pertença religiosa foca na síntese doutrinal, o segundo nas práticas, o terceiro na interseccionalidade das identidades” (2010, p. 52).

Nesse sentido, Rose Drew observa que “no registro histórico e nas tendências contemporâneas, encontramos uma gama de diferentes tipos e graus de múltipla participação religiosa em vários contextos” (2014, p. 248). Ela enumera seis pontos que se enquadrariam nesse amplo foco de múltiplas participações religiosas: i) identidade cultural e funções religiosas particulares; ii) educação religiosa dual; iii) participação ritual ocasional; iv) adoção de práticas ou ideias particulares; v) bricolagem contemporânea da religiosidade; vi) e diálogo inter-religioso e intercultural (DREW, 2014, p. 248-251). Então, Drew, assim como outras acadêmicas e acadêmicos, sugere que nem todos que vivem essas experiências se enquadrariam no termo “múltipla pertença”. Autores como John Thatamanil, Steve Bruce, Paul Hedges etc sugerem outros termos como “múltipla participação religiosa” (THATAMANIL, 2016, p. 7), “estratégia de participação religiosa” (HEDGES, 2017, P.51), “múltipla associação religiosa ou múltiplo interesse religioso” (BRUCE, 2017, 661). Pois o termo “pertencimento”, pertença”, remete a um laço forte, que está muito conectado ao conceito de Ocidental de religião, o qual Hedges conceitua como “Paradigma das Religiões Mundiais”, conforme foi trabalhado no terceiro tópico desse capítulo.

John Thatamanil diz que “a produção teológica cristã tem sido amplamente cega para a realidade da multiplicidade religiosa” (2016, p. 7). E mesmo quando os olhos se abrem para a multiplicidade e pluralismo religioso, há a visão Ocidental do da religião e suas categorizações pelo viés cristão-protestante, em que o aspecto da “boa religião” é a interioridade e uma religião confinada aos espaços privados da vida pública e que a identidade deve ser exclusiva de uma só tradição, seguindo o Paradigma das Religiões Mundiais. A MPR, então, é uma ameaça e algo visto com um olhar de julgamento e o dito “não comprometimento com a fé”, proposto por Catherine Cornille (2013) e outros, no diálogo inter-religioso e em outras instancias da fé. André van der Braak destaca que “na literatura acadêmica, esse fenômeno é frequentemente descrito de maneira negativa, como uma forma de consumismo, compras espirituais ou ‘religiosidade de retalhos’” (2015, p. 162).

A ideia da MPR e conceitos relacionados a temática tem sido trabalhado por inúmeros pensadores. Uma das obras de mais destaque é “Many Mansions? Multiple Religious Beloning and Christian Identity?” de Catherine Cornille. Nessa obra, Cornille organiza textos de outros autores sobre a temática e sintetiza a visão ocidental no primeiro capítulo, definindo como:

Indivíduos que não se sentem mais forçados a aceitar todos os aspectos da tradição sem questionar, passam a adotar uma abordagem mais fragmentada da doutrina, dos símbolos e das práticas, regidos pelo julgamento e pelo gosto pessoal. A partir daqui, é apenas um pequeno passo para a exploração e apropriação seletiva de elementos de crenças e práticas de outras religiões (CORNILLE, 2010, p. 5)

Cornille interpreta a múltipla pertença religiosa em três dimensões: i) focando na experiência da Última Realidade, onde repousam todas as tradições; ii) permanecer fiel a uma tradição embora adote elementos hermenêuticos de outra; iii) conhecimento complementar das religiões (2010, p. 3). Para Muthuraj Swamy. essas três dimensões podem ser encontradas nas populações de base, mas não no nível da teologia e conceitos, e diz que é questionável o aspecto que Cornille coloca de permanecer fiel a uma tradição, pensa que é mais uma pia esperança do que o vasto contexto (2017, p. 190). Para a autora, “a ideia de pertencer a apenas uma religião tem sido mais ou menos estranha à maior parte da história religiosa da China e do Japão” (2010, p. 1). E embora concorde que no nível popular a MPR não é vista como problema, Paul Hedges destaca que a abordagem de Cornille no decorrer de suas ideias é problemática, pois não desafia os conceitos de religião estabelecidos pelo Ocidente, não questiona o Paradigma das Religiões Mundiais, mas acaba corroborando nesse sentido (2017, p. 58-59). Como tal, ela afirma: “No final, a maioria das tradições religiosas espera um compromisso total e único, se não de seus seguidores em geral, mas pelo menos de seus especialistas ou elite espiritual” (2010, p. 3). Se tratando do contexto Oriental, pensadores discutem o termo “múltipla pertença religiosa”, como demonstrado anteriormente. Retomando a citação anterior de Catherine Cornille, Jan van Bragt, na mesma obra de Cornille, é contra essa afirmação e questiona, inclusive, o uso de MPR para o Leste Asiático, com o foco no Japão (seu campo de estudo), Paul Hedges também é contra essa afirmativa do comprometimento das elites ou especialistas das tradições, e utiliza suas pesquisas com as religiões de origem da China. Nessas pesquisas é demonstrado que a inclusive a religiosidade das ditas “elites” também se misturam no mundo oriental e que os conceitos das identidades fixas se tornam borrados e as fronteiras se tornam mais fluidas. Paul Hedges declara que “não é apenas no nível da Religião Vivida, mas também nos níveis mais elitizados, o conceito de Múltipla Pertença Religiosa, como é tipicamente usado, não se encaixa no contexto Chinês” (2017, p. 61).

 Nesse sentido, concordamos com Teresa Crist que diz que é preciso descolonizar a MPR. Ela aponta que muitos estudos sobre a MPR não abordam questões como os deslocamentos territoriais advindos com a colonização e como isso influenciou na MPR, que nem sempre é uma escolha espiritual, mas sim uma estratégia de sobrevivência de povos que foram deslocados de seus lugares de origem e colonizados em suas culturas e manifestações religiosas (2017, p. 17). Crist critica que muitas vezes a MPR é apenas considerada a partir do Paradigma das Religiões Mundiais, influenciado pelos conceitos de religião pós-protestantismo, que privilegiam uma certa forma de participação, uma baseada na afiliação, crença, interioridade e individualismo de tal forma que nem todas as formas de MPR recebem a devida consideração. Sendo assim, para a autora, a MPR “é, na verdade, um termo colonizado, baseado na superioridade desses valores e definições, que negam ou eliminam as experiências dos povos marginalizados” (CRIST, 2017, p. 17).

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Reena Saini Kallat. “Woven Chronicle.” 2011.

Os deslocamentos ou os encontros coloniais não são considerados como MPR, sendo apenas rotulados como conversão sincrética, coação ou um novo produto de aculturação. E para a Crist, todas essas três formas de multiplicidade são MPR. “A MPR precisa, portanto, ser expandida e nuançada para engajar essas diferentes formas de múltipla participação religiosa, que são invalidadas como resultado da ênfase na escolha consciente e na interioridade” (CRIST, 2017, p. 17). Ecoando os pensamentos do teólogo Willie James Jennings, Crist diz que a deslocamento espacial frequentemente leva a um deslocamento espiritual (2017, p. 17). Essa identidades religiosas-culturais são negociadas para que haja uma sobrevivência – literal – da tradição. Então, ela ressalta os povos indígenas norte-americanos que para sobreviverem se “convertiam” ao cristianismo, mas praticavam seus ritos em secreto (2017, p. 18). É necessário levar a sério o entendimento da MPR nas realidades em que culturas e religiosidades foram colonizadas e estereotipadas pelo Ocidente. Repensar as identidades e as categorias para que haja uma real compreensão a partir da realidade e não apenas de lentes já pré-configuradas sobre o que é religião, identidade e pertença.

Para Swamy, o povo da comunidade de Gramam (Índia) constroem sua própria hermenêutica da múltipla pertença religiosa, da qual não está confinada a uma única tradição religiosa, nos termos de símbolos, ritos etc (2017, p. 190). Ele diz: “Por exemplo, quando eu visitada lares Hindus, eu podia ver deidades de diferentes religiões nos seus cômodos de adoração” (2017, p. 190). E é nesse sentido que Bragt sugere que a MPR está “muito perto de ser completamente equivocada” (2010, p. 7). Ele cita três pontos importantes para entender esse fenômeno: i) que a religião é considerada não tanto na questão da verdade e da doutrina, mas no ritual e na prática em que “as fronteiras tendem a se confundir”; ii) as religiões são consideradas situacionais e complementares; iii) uma única visão de mundo permeou muito a religião, de modo as diferentes “religiões” (como territórios delimitados) frequentemente não entrava na equação.

Usando o conceito de Homi Bhabha, a múltipla pertença religiosa é o “entre-lugar”. O conceito de entre-lugar é relacionado com a visão e a maneira da qual grupos subalternos se posicional frente ao poder e como eles criam estratégias de empoderamento. “Esses ‘entre-lugares’ fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidades e postos inovadores de elaboração e contestação” (BHABHA, 2013, p. 20). Nos entre-lugares que as negociações acontecem, negociações essas que ultrapassam a lógica na negação do/a Outro/a. Nos lugares fronteiriços é onde as mudanças ocorrem. Para Daniel Souza “Nesta relação na fronteira, os dialogantes encontram estratégias de interação/negociação e de subversão, em que as identidades/centros são revistas, reconstruídas e criticadas desde a margem” (2014, p. 111). É preciso repensar nossas categorias de religião e identidade, e mergulhar nessas identidades múltiplas que são encontradas em cada esquina de nossas cidades. O cotidiano é o espaço dialogal, espaço de negociar, destruir e reconstruir a si mesma, nesse entre-lugar, nessa vida real.

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Dayanita Singh, 1991

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