A teopoética do corpo

[angelicatostes]
Pra conhecer Deus
(Giovanni Catenaci)
Um certo rapaz quis conhecer a Deus
Entrou pra igreja, fez seminário
Aprendeu grego, hebraico, homilética e patrística
Sabia tudo quanto era escola do pensamento
Desde o medievo até o contemporâneo
E todas essas demais coisas de gente especialista.
Tinha método, sistema, técnica e filosofia.
Em um esforço hercúleo conseguiu arregimentar, vejam vocês: ciência, lógica e teologia!
Mas com o tempo enfastiado de analisar um objeto que sequer existiria
Resolveu consultar um sábio, pra ver o que ele lhe dizia
E sem delongas nem firulas o rapaz perguntaria:
Ó mestre o que eu faço para enfim conhecer a Deus?
Ao que o sábio lhe respondeu:
Tu já experimentas-te poesia?
[Pois bem jovem rapaz é preciso que comece por fazer amor com ele]

 

 

A teologia, diria Rubem Alves, é “jogo de palavras, jogo com palavras. Palavras, nada mais que palavras. E com elas se constroem mundos…” (1985, p. 73). Da onde surgem as palavras? Onde mora a linguagem? Como se faz teologia? Para a teologia feminista, em Ivone Gebara, a teologia deve brotar da experiência do corpo (2016, p. 93). E Rubem Alves questiona: “Haveria algum outro ponto de partida possível? ” (1985, p. 32).

O antropólogo David Le Breton considera que não existem alternativas: experimentamos o mundo e somos atravessados por ele (2016, p. 11). “Antes do pensamento, há os sentidos” (LE BRETON, 2016, p. 11).  O ser humano só tem a consciência de si e do mundo pelo corpo, pelo sensorial e por tudo que o atravessa (LE BRETON, 2016, p. 11). A teologia é tecida com essas linhas do sensível, do corpo que sente, daquilo que está além da linguagem. Chamamos Rubem Alves novamente: “Teologia: poesia do corpo” (1985, p. 52).

“Não é o corpo o centro absoluto de tudo, o sol em torno do qual gira o nosso mundo?” (ALVES, 1985, p. 32). Ivone Gebara responde essa pergunta dizendo que o corpo é “o centro de todas as relações, corpo do qual partem todos os problemas e para o qual tendem a convergir todas as soluções” (GEBARA, 2016, p. 90). Para Le Breton “a condição humana é corporal” (2016, p. 24). Não há percepção fora do corpo, é com ele que sentimos o mundo. O antropólogo brinca com a famosa frase de Descartes: “Penso, logo existo”, que para abranger a totalidade da condição humana deveria ser “Sinto, logo sou” (LE BRETON, 2016, p. 11).

O corpo não é um “organismo animal” (ALVES, 1985, p. 78), “um organismo biológico” (LE BRETON, 2016, p. 25), é antes uma “criatura do sentido” (LE BRETON, 2016, p. 25).  Para o téopoeta o corpo é “produto da imaginação”.(ALVES, 1985, p. 46). É preciso do corpo, dos sentidos, para uma teologia da “sensualidade que vem alimentar a escrita e a análise” (LE BRETON, 2016, p. 11).

“O corpo é a condição humana do mundo, este lugar onde o fluxo incessante das coisas se detém em significações precisas ou em ambiências, metamorfoseia-se em imagens, em sons, em odores, em texturas, em cores, em paisagens etc.” (LE BRETON, 2016, p. 13). Sentimos o mundo com o nosso corpo. A teologia se faz no corpo, se faz nas possibilidades e impossibilidades da experiência do corpo. É o corpo que sente o êxtase divino e é ele que sente a opressão, é ele que “se transforma em lágrimas, gritos de dor, em fuga, calafrios, ódios e perseguição” (GEBARA, 2016, p. 90), mas também é ele que se transforma no arrepio de ouvir uma canção de amor, do frio da barriga de uma nova experiência, no movimento de uma festa, no gargalhar até doer as bochechas.

Sentir o mundo para compreendê-lo. Corpo que pulsa a vida e emoção que estrutura o mundo (ALVES, 1985, P. 39). Le Breton ilustra o sentir o mundo com a metáfora da floresta

“Percorrendo a mesma floresta, indivíduos diferentes não são sensíveis aos mesmos dados. Existe a floresta do coletor de champignons, do passeante, do fugitivo; floresta do índio, do caçador, do guarda-florestal ou do caçador ilegal, a dos apaixonados, dos extraviados, dos ornitólogos; a floresta igualmente dos animais ou da árvore, a do dia e da noite. Mil florestas na mesma, mil verdades de um mesmo mistério que se esquiva e que jamais se dá senão em fragmentos. Não existe verdade da floresta, mas uma infinidade de percepções a seu respeito segundo ângulos de aproximação, de expectativa de pertenças sociais e culturais.” (LE BRETON, 2016, p.12)

Cada corpo que pisa no mundo tem sua percepção dele, não há neutralidade do corpo (ALVES, 1985, p. 38). Sentimos e damos sentido ao que sentimos. “Se o corpo e os sentidos são os mediadores de nossa relação com o mundo, eles não o são senão através do simbólico que os atravessa” (LE BRETON, 2016, p. 25). Lembramos quando Rubem Alves nos disse que a “teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar… Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela deitar o nosso corpo ” (2009). Compreender a teologia como uma rede que tecemos para nós, com o nosso mundo simbólico é adentrar-se na antropologia do sensível, proposta por Le Breton, que utiliza a mesma metáfora que das redes e malhas e diz

“Os limites do corpo […] são aqueles fornecidos pelos sistemas simbólicos dos quais ele é tributário. Como a língua, o corpo é uma medida do mundo, uma rede lançada sobre inúmeras estimulações que assaltam o indivíduo ao longo de sua vida cotidiana, das quais só retém em suas malhas as que lhe parecem mais significantes “(2016, p. 25).

O que é mais significante para a teologia senão a vivência do corpo com o divino? Sentir o divino com o corpo é “ver, escutar, saborear, tocar ou sentir o mundo, é permanentemente pensá-lo através do prisma de um órgão sensorial e torná-lo comunicável” (LE BRETON, 2016, p. 25).  A teologia é a tentativa de comunicação dessa experiência corporal com o transcendente.  Porém como se dá a essa comunicação?

Sentimos no corpo e nele produzimos uma rede de significações e sentidos, cada corpo sente a realidade de uma maneira distinta. As percepções sensoriais, as visões, sensações são consequência de um simbolismo adquirido. E a linguagem é a mediadora da partilha da experiência com o corpo para outros corpos (LE BRETON, 2016, p. 29). Entretanto, a linguagem é frágil, ela cristaliza a percepção e a interpela (LE BRETON, 2016, p. 30). Há uma dialética entre a língua e as percepções, diz Le Breton (2016, p. 30). A linguagem, as palavras, “parecem ter o poder para produzir, construir entidades ideias com que o pensamento brinca e se diverte, sem que elas existam, como objeto, em lugar algum” (ALVES, 1985, p. 139). Com a linguagem tecemos sentidos, alimentamos o mundo e nomeamos as coisas. Cada cultura terá seu tecido linguístico e construirá sua própria percepção da realidade. “Entre o mundo e a língua se estende para cada sociedade uma trama sem costura que leva os homens a viver em um universo sensorial e semiológico diferentes” (LE BRETON, 2016, p. 30). Mas como traduzir a experiência com o divino em palavras?

“Mas, se as percepções sensoriais estão em vínculo estreito com a língua, elas a superam igualmente pela dificuldade de traduzir em palavras um ressentido: o gosto de um licor, o prazer de uma carícia, um odor, uma sensação dolorosa exigem muitas vezes, por exemplo, o recurso às metáforas, às comparações. Elas obrigam o indivíduo a um esforço de imaginação, a entrar criativamente em uma linguagem que sofre para traduzir a fineza do ressentido. Resta um invólucro irredutível à língua em cada sensação provada. Se o sistema perceptivo é estreitamente ligado à linguagem, ele não lhe é completamente subordinado” (LE BRETON, 2016, p. 31).

E é com as metáforas, comparações, imaginação que a teologia apofática -negação – toma o lugar da teologia catafática – afirmação. Afirmar, sistematizar, transformar em doutrina uma experiência vivida no corpo é limitar os sentidos da experiência em outros corpos.  Rubem Alves já dizia que para pensar sobre Deus ele não lia teólogos mas sim poetas. A teopoética se torna uma linguagem-mais-possível de comunicar o incomunicável vivido no corpo.  A construção teológica por meio da estética e do sagrado-indefinível é uma preocupação da teopoética, que enfatizará a dimensão da poesia no contexto teológico. A teopoética não pretende ser dogmática, pelo contrário, pretende gerar novos textos, reflexões, poesias. Para Scott Holland: “uma espécie de escrita que convida a mais escrita. Suas narrativas levam a outras narrativas, suas metáforas encorajam novas metáforas, suas confissões mais confissões…” (HOLLAND, 2006, p. XIX-XXI).

O esforço a imaginação que Le Breton nos relembra é um fator importante para a linguagem poética-simbólica das metáforas e comparações. Quando a racionalidade não dá conta da experiência são necessárias outras formas de expressão – a arte. A teologia é imaginação, é potência de criação poética. “A imaginação voa e o corpo cria” (ALVES, 1985, p. 45). Todos os corpos são criadores de mundos, imaginativos e matérias, sujeitos da própria teologia, enraizada nos diversos corpos e experiências. Para Rubem Alves “A imaginação são as asas do corpo. O corpo, a força da imaginação” (1985, p. 45).

Além de Rubem Alves, Ivone Gebara e David Le Breton chamaremos para essa costura teológica o rapaz latino-americano Belchior. Não analisaremos músicas e nem sua história pessoal, mas utilizaremos a sua canção-poema como uma linha colorida para o bordado de uma teopoética do corpo. Em sua canção-poema Alucinação (1976), Belchior diz “Eu não estou interessado/ Em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente/ Romances astrais/ A minha alucinação/ É suportar o dia-a-dia/ E meu delírio/ É a experiência/ Com coisas reais”. Lidar com o corpo da Latino-América é lidar com o corpo que sofre e que deseja.  As “experiências com coisas reais” da canção-poema de Belchior é a luta para tecer vida em um ambiente onde a violência e desigualdade prevalece. Esse corpo que deliria e alucina com as coisas reais e com o dia-a-dia é um corpo que não é uma matéria passiva, ele “é uma inteligência de mundo, uma teoria viva aplicada ao seu meio ambiente” (LE BRETON, 2016, p. 28). A teologia que não está conectada com a vida no corpo e para o corpo não faz um sentido, pois só tecemos sentido pelo corpo e com outros corpos. “Na origem de toda existência humana o outro é a condição de sentido, isto é, o fundamento do vínculo social. Um mundo sem outrem é um mundo sem vínculo, fadado ao não sentido” (LE BRETON, 2016, p. 32). Na canção-poema Belchior cita o que é sua experiência – a relação com outros corpos: “violência da noite, uma mulher sozinha, um preto pobre, uma estudante, pessoas cinzas normais, meu corpo que cai do oitavo andar, um rapaz delicado e alegre, etc…”. O cotidiano do corpo, das vivências, de tudo o que nos atravessa e perpassa, é o que constrói a teologia, a teopoética do corpo. Trazer o cotidiano corpóreo para a reflexão teológica é  tornar a epistemologia sensualizada, como diria Ivone Gebara. “O cotidiano é o combate para viver hoje, para encontrar trabalho, para ter o que cozinhar, para ter água para lavar as crianças e a roupa, para trocar gestos de amor, para encontrar um sentido imediato para a vida” (GEBARA, 2000, p. 121). E é nesse cotidiano que é possível uma teopoética do corpo, do corpo que sente. “De fato, na vida cotidiana, as enésimas percepções que esmaltam a duração da jornada se fazem sem a medição aprofundada do cogito, elas se encadeiam naturalmente na evidência da relação com o mundo” (LE BRETON, 2016, p. 28)

Rubem Alves faz uma crítica aos teólogos da libertação que esqueceram-menosprezaram, em sua grande maioria, a dimensão do corpo e suas subjetividades para construir um discurso teológico.

“E não me venham com o chavão de que a preocupação com o corpo é doença de pequena-burguesia. Como se os trabalhadores não tivessem corpos, e sentissem dor de dentes com os dentes de sua classe social, e fizessem amor com os genitais de sua classe social, e cometessem suicídio com a decisão de sua classe social. O corpo, na verdade, é a única coisa que eles possuem – e têm de alugar. Para quem está sofrendo só existe o corpo e a dor: dor imensa, dor que é prelúdio da morte, morte que tem a ver com o meu corpo, único, irrepetível, centro do universo, gravido de deuses” (ALVES, 1985, p. 33).

Esse cotidiano do corpo [dos pobres, das mulheres, da população LGBT, dos indígenas, dos negros e negras] não deve ser estar ausente para a construção de uma teopoética do corpo. Corpo que não é um só, mas vários, pluralmente corpo, puramente corpo. Rubem Alves retoma incorpora o corpo. A teologia da libertação comete o mesmo equívoco das teologias clássicas ao exilarem o corpo de sua construção. A teóloga argentina Marcella Althaus-Reid também é crítica a exclusão do corpo e do sexo para o pensar teológico, sendo assim propõe uma teologia indecente, que questiona todo esses paradigmas da sexualidade cristã que mortifica os corpos e as experiências possíveis e impossíveis para o corpo. Para ela o que estagna a teologia da libertação é quando o pobre se torna um conceito e as diferenças sexuais e subjetividades são ignoradas (ALTHAUS-REID, 2016, p. 61).  “O corpo concreto, que se relaciona com o prazer e as experiências sexuais foi esquecido, escondido, negado, desprezado, visto como impróprio, desnecessário e meramente acessório tanto para a prática quanto para o discurso teológicos” (CARVALHAES, 2010).

Para Ivone Gebara “partir do corpo é redimi-lo, é acolher nele a criação como profundamente boa, é acolher o abraço divinizante da matéria no estremecimento dos corpos, nas suas trocas energéticas, no mistério que encerram, na vida que buscam” (2016, p. 93). Uma teopoética do corpo é um discurso que tem odores, sabores, toques, imagens, sons. Que busca no corpo a rede de sentido e significações para comunicar, da maneira possível, sua experiência com o transcendente.  “Transcendência que significa que o mal nos supera às vezes com mais força que o bem, ou que o mal sempre está ai, intrometido, misturado em nosso cotidiano” (GEBARA, 2000, p. 97), cotidiano da América Latina. Começamos esse breve ensaio com a pergunta se era possível outro ponto te partida senão o corpo e acreditamos que não, ressoamos juntos com Rubem Alves:

Tudo pelo corpo.
Tudo a partir do corpo. (1985, p. 34)

Belchior finaliza a canção-poema Alucinação com o seu objeto de interesse maior, com aquilo que leva os corpos a entrarem em movimento contínuo e que leva a luta da América-Latina para frente, mais do as teorias, teologias, metafísicas, orientalismos, romances astrais, coisas desconectadas com o dia-a-dia, com as coisas reais, com o corpo. “Amar e mudar as coisas/ Amar e mudar as coisas/ Amar e mudar as coisas/ Me interessa mais” (1976)

Bibliografia

ALTHAUS-REID, Marcella. “Marx em um bar gay: a teologia indecente como uma reflexão sobre a Teologia da Libertação e sexualidade. ”. In RIBEIRO, Cláudio (org). Rasgando o Verbo – Teologia Feminista em foco. São Paulo : Fonte Editorial, 2016.

ALVES, Rubem. Variações sobre a Vida e a Morte: o feitiço erótico-erótico da teologia. 2 ed. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985

CARVALHAES, Claudio. O pobre não tem sexo – A ausência dos discursos de sexualidades na construção da noção de subjetividade na Teologia da Libertação. Disponível em < http://www.claudiocarvalhaes.com/articles-pt-br/o-pobre-nao-tem-sexo/ > Acesso em < 12 de jun de 2017 >

GEBARA, Ivone. Conhece-te a ti mesma – Uma leitura feminista do humano. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

____________. Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis:  Editora Vozes, 2000.

_____________. “Corpo, novo ponto de partida da teologia”. In RIBEIRO, Cláudio (org). Rasgando o Verbo – Teologia Feminista em foco. São Paulo – Fonte Editorial, 2016.

HOLLAND, Scott. How Do Stories Save Us? Grand Rapids: Eerdmans, 2006.

LE BRETON, David. Antropologia dos Sentidos. Petrópolis: Ed. Vozes, 2016.

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