ninguém ressuscita no terceiro dia

Pinto as rosas com meu sangue. Elas estão apagadas. Murchas. Talvez pelo calor que fez hoje. Não me dou bem com o calor.  Lembro do dia que você foi no meu apartamento, estava muito quente, meu ventilador estava quebrado e não ventava aquele dia. Tomamos uma cerveja podre já quase quente pelo excesso de quentura. Tadinhas das rosas. Sem cor. Dizem que a natureza morta vira arte em quadros caríssimos que são expostos em museus pelo mundo inteiro. Quem se importa com porcarias de rosas mortas? Você me deu essas rosas – mas você sabe que gosto de girassóis – ficou por uma semana na pia da cozinha. Acompanhei a deterioração dia após dia, talvez porque representasse o que estava acontecendo com a nossa relação – morrendo dia após dia. Peguei o maço de rosas para jogar no lixo e me furei com algum espinho. Vi o sangue no meu polegar e deixei que escorresse nas pétalas já mortas. Dizem que o sangue é vida. Dei o sangue as rosas, dei o sangue por nós. Dei o sangue pensando que era possível uma ressurreição após o terceiro dia. Por vezes a fé mais atrapalha do que ajuda. De que adianta ter fé se o fim era certo? O fim é certo. Tudo acaba. Ninguém ressuscita no terceiro dia. A vida é o sábado do silêncio e luto. Não tem sido fácil lidar com as memórias que esse apartamento guarda. Nunca mais bebi chá de hibisco. Vermelho-sangue. Sangue das rosas de uma semana atrás. Maldito dia em que você apareceu depois de anos e tomamos um chá de hibisco com bolachas. A vitrola cantarolava alguma música sobre girassóis – me lembro disso. Já fazem 5 anos desde aquele dia. Transamos como dois desconhecidos apaixonados e você foi embora. Tudo nublou e no dia seguinte veio a tempestade. Raios, ventos, trovões, chuva incessante. Tudo isso dentro de mim. Lá fora fazia um lindo dia de outono, as folhas laranjas dançavam na janela de meu apartamento e tive raiva delas. Dançavam felizes no sol do fim de tarde e eu fumando meu cigarro e bebendo whisky desde cedo. Minha vitrola quebrou. Tive que mandar concertar e ficou 500 paus. Poderia ter comprado outra, mas essa daqui era do meu tio que já morreu. Chegou do concerto há dois dias, estava dura para pagar. As coisas andam ruins financeiramente. Vendi duas câmeras minhas para poder pagar as contas desse mês. Melhor ter paz e pão duro que fartura e guerra. Ouvi isso em algum lugar, deve ter sido na igreja – faz anos que não entro em uma igreja. Estou procurando outro apartamento para morar. O mofo desse lugar tem mofado minha alma. Ela está embolorada pela umidade que você deixou impregnada nesse lugar – umidade do descaso e da frieza. Você nem sempre foi assim, você sabe disso. Qual veneno que você tomou que matou o que havia de melhor em ti? As memórias vêm como vendavais incontroláveis. Me sinto como Antoine Roquentin tentando não pensar e pensando que não quero pensar e pensando, pensando, pensando até… Minhas costas doem. Você sabe que quando me estresso muito tudo dói. Mas o que mais dói é saber  que ninguém ressuscita no terceiro dia e que a morte vence no final. O cheiro de incenso já faz parte desse apartamento. Comprei uns bem baratinhos na feira da República, não é tão bom, mas era o que dava pra levar. Não consigo ficar sem incenso. Memórias. Li para você o poema de Louise Labé com meu francês fajuto: “Embrasse-moi, embrasse-moi encore et encore: / donne m’en un de tes plus savoureux, / Donne m’en un de tes plus amoureux : / je t’en rendrai quatre plus chauds que braise.” O incenso que estava aceso era de canela. Você riu da minha tentativa de ler em francês e me beijou, beijou, mais e de novo, beijos saborosos, amorosos e te devolvi quatro vezes mais como uma brasa incandescente. Tudo isso está em um passado que não existe mais. Tal qual Deus que outrora existia e agora não mais. Matamos Deus. Se vivemos melhor ou pior já não posso dizer. Digo que apenas vivemos. Isso basta. Me olhe. Olhe no fundo dos meus olhos e mergulhe no universo estrelados que moram em mim. Explosões de cores, de aromas. Há uma guerra sangrenta acontecendo no meu olhar. Me olhe. Há gritos de desesperança. Há amantes se abraçando a céu aberto. Me olhe. Há sangue. Como nas rosas que você me deu uma semana atrás. O espinho me machucou. Ninguém ressuscita no terceiro dia. Nem você. Nem as rosas. Gosto de morar sozinha, você sabe, por isso nunca moramos juntos, embora você passasse alguns dias por aqui. Adoro andar nua pela casa. A nudez é contemplativa. É, Egon Schiele sempre me inspirou. A nudez violenta de suas obras. Um de seus poemas diz: “sou todas as coisas ao mesmo tempo”. Pena que morreu jovem. 28 anos. Já estou com meus 30 anos e o que fiz? Que arte perturbadora deixo para esse mundo? Tenho meus rabiscos, alguns cadernos velhos, poemas defecados. Mas o que fariam com essa porcaria? Sabe porque gosto de morar sozinha? Porque amo deitar no chão da minha sala – braços e pernas abertas. Me torno o chão, o pó. Se eu tivesse um gato ele se chamaria Egon. Já tive uma árvore chamada Egon. Quer dizer. Ela não era minha. Nada é nosso, essa é a verdade. Somos do tempo. Enfim, já tive uma árvore chamada Egon. Ela era um ypê amarelo. Descobri só depois de a nomear. Passava todos os dias voltando do trabalho quando morava na casa de meus pais e dizia no pensamento: “oi, Egon”. Nisso eu a tocava, me energizava com a sua presença. Ela lembrava muito as pinturas de Schiele – aquelas árvores magrinhas, com galhinhos fininhos. Depois floreou. Era um ypê amarelo. Acho que já escrevi isso. Fiquei feliz quando descobri. Preciso visita-la. Nunca gastei 1000 reais em um livro, mas do dele quase gastei. Na verdade, só não gasto porque não tenho. Hoje completou 8 anos que estou nesse apartamento. Esse carpete cinza testemunhou grande eventos. Grandes guerras. Guerra fria. Do silêncio ao descaso. Contratei para tirarem esse carpete. Esse cinza tem me deprimido. Há muito cinza dentro de mim. E lá fora também faz cinza. Faz uma semana que está chovendo sem parar. Faz uma semana que você me entregou aquelas rosas inúteis. Não gosto de rosas. Não sei porque você me deu. Coloquei na pia e lá ficou por 7 dias inteiros. Apodreceu. Como você. Apodreceu por dentro. Dorian Gray também apodreceu por dentro. Sibyl Vane morreu e eu também. Ninguém ressuscita no terceiro dia. Tocava “Dancing Barefoot”. Apenas a luz da rua entrava pela janela. Era uma noite de lua cheia. Eu estava na cama sentada nua e você no chão segurando meu pé. Dividíamos um cigarro em silêncio. “We shut our eyes we stretch out our arms/ And whirl on a pane of glass/ An afixiation a fix on anything the line of life the limb of a tree/ The hands of he and the promise that she is blessed among women”. Queria gritar: “OH GOD I FELL FOR YOU…” Cereja. Cigarro de cereja. Não gosto, mas era o que tinha. Oh God… De que adianta gritar? I fell for you. Parece nunca passar. Oh God… Minha garrafa de vodka acabou. Aquela que você me trouxe da sua viagem. 7 meses longe. Sim, te traí. Oh God… Ela não me deu rosas, nem girassóis. Mas me deu prazer. Fazia tempo que não me sentia daquela maneira. Você também me traiu na Rússia. Eu sei que sim. Nunca conversamos sobre isso. Nunca fomos muito monogâmicos, não é mesmo? Oh God I fell for you. Você foi infiel. Não por isso. Mas por outros infinitos motivos. As pessoas pensam que a infidelidade se resume no ato de traição. Bobagem. A infidelidade é a lágrima desperdiçada ao abismo. Todo corpo pede outro corpo. Mas as lágrimas só pedem aqueles que habitam dentro de nós. Você habitava. Você escolheu sair e joguei todas suas coisas foras. Menos a garrafa de vodka que acabou. Vou utilizar como vaso para meus girassóis. Não rosas. Malditas rosas. A dor do espinho no meu polegar não se compara a dor que foi te rever. Para que você me deu essas rosas? Nem gosto de rosas. Tenho certeza que foi de propósito. Oh God… Há lixos seus dentro de mim. Quero vomitar. Quando te vi me deu náusea. “Some of these days, Oh, you’ll miss me honey”. Que eu defeque seus poemas inúteis, como as rosas que você me deu. Que eu vomite seus sorrisos e o som da sua risada. Você pode até argumentar que fui eu que dei um fim nessa relação – mas não havia mais relação. Ninguém ressuscita no terceiro dia. Não seria diferente conosco. Todas as luzes são vermelhas e azuis. Me encaro no espelho e vejo o quanto envelheci. 30 anos. Se o corpo é um poema serei um poema desfalecido em olhos tristes e fundos. Vazios. Você foi. Bem antes de mim. “Mim quer sair de si”. Ah… Fui naquela exposição do fotógrafo que você gosta – Boris Kossoy. Queria quebrar todos os quadros e rasgar as fotos. Numa tarde de verão pegamos o livro e você me contou a história de muitas daquelas fotografias. Bebíamos um suco de maracujá natural, estava meio azedo, mas não colocamos açúcar como de praxe. Queria rasgar as fotografias. Como rasguei aquelas que você tirou de mim e me deu. OH GOD… Já são 3 horas da manhã. Minhas costas estão melhores depois de ter escrito tudo isso…I FELL FOR YOU. Suas rosas estão no lixo. Como o amor que sentia por ti.

 

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