tempo, tempo, tempo…

Escrevo memórias no vapor dos dias. Elas se vão também. Tudo, um dia, se vai… E tudo bem, eu acho. Tenho construído com as minhas mãos belezas emergenciais – a feiura do mundo tem me entristecido. As pinturas surgem como tentativas de uma sobrevivência da poética do cotidiano.

Por vezes os dias são lentos, outros rápidos como uma vela ao vento. Não tenho entendido a relação chronos-kairós. Tudo parece como uma pintura surrealista de Dalí, as coisas se derretendo, o tempo escorrendo pelos esgotos a céu aberto.

Como Szymborska, eu também converso com as plantas. Acolho seu silêncio como as doces palavras não-ditas de Deus. O Deus que eu conheço conversa com olhares e toques, raramente por palavras.

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Desde sempre gosto das coisas demoradas. As câmeras analógicas me ensinaram muito nesses últimos 11 anos: processos demorados que nem sempre dão certo. Já perdi inúmeros filmes, outras tantas memórias congeladas em retratos. As que dão certo, uma alegria danada. Muitos erros, alguns acertos e a demora como um processo natural da vida.

Hoje quem me ensina são as plantas, o minhocário, levain… Não tem receita acerta, a receita é encontrar o equilíbrio do solo, do sistema, da fermentação. E isso não é aplicável, tudo é uma variável: incidência solar, ventilação, drenagem, material seco, saúde e reprodução das minhocas, temperatura do dia, tipo de farinha e água. Tudo depende de tudo. É uma interdependência saudável.

Essa semana tirei um vaso da varanda e coloquei no meu quarto, suspeitava que não estava gostando muito de onde estava. Descobri que se trata da planta Hosta Africana, e ela gosta de sombra. Peguei essa planta na minha avó, como o cultivo da memória de sua vida que já não está mais por aqui…

Brigo com o tempo, principalmente esse linear que é imposto pelo ocidente. Quero viver no templo circular dos povos antigos, tempo circular da vida, o oroboro divino. Kali, a mãe do Tempo, em sânscrito Kala, é a que dá a vida e tira. É o ciclo fechado, perfeito. Com seus pés dança e destrói a linearidade das coisas, deixa-as confusas, meio misturadas, opacas… dizem que é Maya, a ilusão dos apegos. Krishna, com sua flauta sopra o som da vida, as gopis dançam também e me encontro entre elas.

O sábio grita: ilusão, ilusão, é tudo vaidade! O tempo vem como uma peneira para encontrarmos as verdadeiras joias da vida. Peneirar pedras, para talvez encontrar ouro. E no final, jogar o ouro e a pedra no rio e compreender que são a mesma coisa: eu, o mel, a abelha, o cogumelo que apareceu pela manhã no meu jardim e ao meio dia já não estava mais aqui… como minha avó.

 

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