Polidoxia: multiplicidade, não-saber e relacionalidade

 O entendimento do conceito de polidoxia se perpassa pela definição da palavra doxa, que pode significar “opinião”, como em ortodoxia, a “opinião correta”, mas também pode significar “glória” e “louvor”. Assim, polidoxia é um neologismo que abarca a multiplicidade de opiniões, articulações, pensamentos, visões sobre o divino. Dessa forma, é criada uma multiplicidade de perspectivas a partir, e além, das fronteiras das inúmeras tradições cristãs, ressaltando assim, a diversidade do que se chama Cristianismo. Catherine Keller e Laurel Schneider organizaram importante obra chamada “Polydoxy: Theology of Multiplicity and Relation”, com múltiplas vozes para compor pensamentos ao redor da polidoxia. A polidoxia não é uma escola de pensamento e nem existe uma tradição específica ou alguma metodologia organizada, mas, antes, opera em uma intuição triúna: multiplicidade, não-saber e relacionalidade.  A partir dessa tríade conceitual, pensadores e pensadoras trabalharam com a polidoxia em diversas facetas. Pode-se dizer que, o que une as/os intelectuais na construção da polidoxia, é o comprometimento pela justiça nas suas diversas interseccionalidades.

Ao pensar a(s) teologia(s) a partir da polidoxia é realizado um deslocamento da lógica do império/centro e de sua obsessão da “lógica do Uno” vindo das religiões monoteístas (SCHEINER, 2008). Nesse sentido, é imprescindível pontuar que a polidoxia é afirmação que nenhuma religião, credo, doutrina, fé podem exaurir quem Deus é e nem aclamar por uma única visão, única doutrina, única interpretação da experiência religiosa (PUI-LAN, 2015, p. 75). A polidoxia é então, uma potência de continuação criativa do Cristianismo, como uma resistência a univocidade da narrativa, doutrina, credo da tradição. Reforça a abertura aos processos da construção teológica às margens, que são descredibilizadas por aqueles que defendem a Tradição Cristã como uma unidade plena.

Multiplicidade. Um dos principais pontos da polidoxia é a multiplicidade. Os autores e autoras distinguem a multiplicidade da “pluralidade”, já que esta é usada a nomear a profusão de indivíduos. É ressaltado o uso do “pli”, dobra, de multiplicidade, que destaca uma relacionalidade que se envolve e se dobra não apenas nas individualidades, singularidades, mas é como posicionamento de dobrar-se, entrelaçar-se nos múltiplos. A multiplicidade é, em si mesma, um recurso teológico (KELLER; SCHEINER, 2010). O ato de relembrar das múltiplas narrativas da criação, ou das múltiplas vozes dos quatro evangelhos canônicos, com os antigos escritos hebraicos e mais os evangelhos apócrifos manifesta a multiplicidade da Tradição Cristã. Porém, Catherine e Laurel alertam que não se deve abraçar a multiplicidade de uma maneira ingênua.

A multiplicidade é um conceito poderoso, mas ao mesmo tempo arriscado, podendo conter armadilhas. O capitalismo, com suas artimanhas, utiliza a pluralidade no contexto de uma economia global, podendo aniquilar toda a diversidade a que clama (KELLER; SCHEINER, 2010; PUI-LAN, 2015,). Entretanto, a multiplicidade é em uma rica fonte de revelação das possíveis teologias flexíveis, abertas para o divino no mundo, reconhecendo os limites dos saberes, do conhecido. A teologia da multiplicidade assume os limites das metáforas para expressar o divino, assume a fluidez divina em sua incapacidade de definição, muros, conceitos.

Não-saber. No livro Globalização, gênero e construção da paz: o futuro do diálogo interfé (2015), de Kwok Pui-Lan, o conceito unknowing da polidoxia é traduzido como irrestringibilidade. No entanto, preferimos a tradução do conceito em “não-saber”, que remete a tradição da teologia apofática e sua famosa obra Nuvem do Não-Saber – Uknowing Cloud. A Nuvem do Não-Saber é uma obra de autoria desconhecida, se torna leitura clássica do misticismo cristão por narrar a vida contemplativa e a união da alma a Deus. A polidoxia é intrinsicamente relacionada a teologia apofática, ou seja, a humildade em reconhecer o não saber de tudo, mas também a explosão de expressões em face disso tudo (KELLER; SCHEINER, 2010, p. 8). A teologia apofática “insiste que a natureza de Deus não pode ser plenamente descrita, e que só podemos falar a respeito do que Deus não é, em vez de sobre o que Deus é” (PUI-LAN, 2015, p. 75-76).

O não-saber da polidoxia tem suas raízes na Teologia Negativa, no não-dito das próprias certezas, que perpassam as identidades, corpos, essências, exclusões, objetificações, porém, paradoxalmente, é isso que faz a polidoxia falar de Deus.  A polidoxia é uma incerteza. É a permanente abertura para o não-conhecido, para novos insights, aprendizados, para além e em confrontação à toda violência colonial, imperial, psicológica, corporal que clama por uma única verdade (RUBENSTEIN, 2014, p.2). O giro apofático não é apenas uma mera negação, mas é a transformação das certezas em incertezas de braços abertos, como um solo “fértil, receptivo, uma abertura promíscua” (KELLER; SCHEINER, 2010, p. 8). Portanto, a polidoxia desafia as doutrinas que pretender deter o monopólio de Deus e da Verdade, assumindo o seu não-saber e a abertura para o Mistério do Não-Saber. O misticismo na polidoxia deve ser entendido como uma profunda conexão das inter-relações. O Não-Saber é uma abertura a sensibilidade do misticismo nas situações ordinárias e cotidianas da vida.

Relacionalidade. A relacionalidade é o princípio que une a multiplicidade e o não-saber, do contrário, a polidoxia cairia em uma pluralidade incoerente e em uma apofaticidade que é mera negação. Mas, a relacionalidade é o que torna possível a teologia ser compartilhada, com o encontro com outras visões e inspirações. Para Keller e Scheiner, a relacionalidade distingue o pluralismo do relativismo, que deixaria turva as águas do julgamento e inibiria as resoluções de conflito (2010, p. 9). Os autores e autoras, que se dedicam ao trabalho da construção da polidoxia, em geral, são comprometidos com o pensamento da herança feminista e os movimentos de libertação negra, que enfatizam a de relacionalidade da condição pessoal, política e temporal. Pode-se dizer, então, que a interseccionalidade é um fator essencial para a relacionalidade na polidoxia, pois, abarcaria as diversas pautas e lutas na sociedade. Tal perspectiva traz as memórias dos povos oprimidos e excluídos, abarcando os hibridismos, negociações, miscigenações da sabedoria e da promiscuidade do amor divino (KELLER; SCHEINER, 2010,; ALTHAUS-REID, 2002). A ecoteologia feminista latino-americana tem oferecido substancial contribuição nestes aspectos.

Ivone Gebara por exemplo, indica que a relacionalidade é algo que toca aos níveis mais profundos da humanidade, a conexão entre si e conexão entre a terra. Trazendo a dimensão da relacionalidade para os corpos no aqui e agora, é pensado a ressurreição, advindo da tradição cristã, não apenas para os corpos humanos, mas para o Corpo Maior, o corpo da terra. “A relacionalidade e a interdependência entre as pessoas e entre elas e a Terra devem ser reconhecidas como variáveis importantes no surgimento de ações éticas” (GEBARA, 2017). Outro importante ponto é o ouvir outras vozes, sair e desafiar a narrativa única que são promovidas pelo Norte Global. Um movimento pós-colonial e decolonial se faz necessário na categoria da relacionalidade, reconhecendo e aprofundando nas teorias e epistemologias do Sul Global.

É fundamental compreender como as identidades são forjadas a partir de locais de opressão e das lógicas ambivalentes do poder, O “híbrido colonial e a articulação do espaço ambivalente onde o rito do poder é encenado no espaço de desejo, tomando seus objetos ao mesmo tempo disciplinares e disseminatórios” (BHABHA, 2013, p. 163). Esse reconhecimento se passa pelas estruturas ambivalentes das relações híbridas e, de igual maneira, dos complexos desejos que circulam no chão do império. A opressão, nesse sentido, é a supressão da relacionalidade, que é testificada por doutrinas de separação e de legitimação de inúmeras violências. A busca  da relacionalidade identitária é uma estratégia de sobrevivência, que desafia a lógica do Um, fazendo que a “polidoxia em si mesma seja um dom ambivalente” (KELLER; SCHEINER, 2010, p. 10), alargando a imaginação teológica através de noções de identidades fluídas e um horizonte pacífico que une e se desdobra. A relacionalidade na polidoxia é orientada por uma atração ambivalente, esperanças incertas e uma atenção aos últimos, minorias, sempre distintas de nós.

Ortodoxia e Heresia. A polidoxia não é uma mera oposição a ortodoxia, mas antes, opera em uma relação complexa. Seria uma redução contrapor a ortodoxia (uno, certezas, autonomia) à polidoxia (multiplicidade, incerteza, relações), visto que muitos valores da polidoxia também emergem da tradição ortodoxa (catafático, apofático, trinitário). Dessa forma, a polidoxia não é uma oposição à Unidade, mas se difere para além e com a Unidade, em uma complexa intra-atividade com ela (RUBENSTEIN, 2014,). E essa intra-atividade se expressa de inúmeras maneiras, como por exemplo, a distinção de ortodoxia e heresia, que estabelece um “certo” por si só e pune, ridiculariza, menospreza e aniquila tudo aquilo que se difere disto. A ortodoxia surge posteriormente as “heresias” e é marcada pela vontade de dominar e suprimir o diferente (BURRUS, 2014). Dessa maneira, a heterodoxia pode ser compreendida como sendo constitutiva da ortodoxia, pois esta, reprime os outros (RUBENSTEIN, 2014,). Porém, a dita ortodoxia não é tão unificada como se parece, basta imaginar a pluralidade dos quatro evangelhos canônicos, a complexidade cultural e religiosa no antigo oriente, os múltiplos concílios, doutores e padres, madres, discutindo entre si. Assim sendo, a ortodoxia em si mesma já é sempre uma polidoxia (KELLER; SCHEINER, 2010).

Para Claudio Ribeiro “conceito de polidoxia uma referência teológica importante para a construção de imaginários dialógicos no contexto das aproximações e diálogos inter-religiosos” (RIBEIRO, 2017). A tarefa da polidoxia é expor todas essas multiplicidades constitutivas na ortodoxia, e oferecer de volta recursos revisionais para uma ação e ruminação teológica. É necessário certo cuidado para que nesse investimento de abertura, comparado a ortodoxia, não se replique as mesmas operações de poder que a polidoxia critica. A ortodoxia clama por uma única visão epistemológica, a partir da visão da unidade da fé, credo, doutrina. Assim, a polidoxia, embora resistindo a visão binária de polidoxia versus ortodoxia, procura a abertura de epistemologias para além da construção ocidental do conhecimento, que muitas vezes promove violências coloniais de gênero e sexualidade, raça, ecológicas. Por essa razão, é necessário lembrar que a visão do Iluminismo não é a única maneira de compreender a verdade cristã (CRAIGO-SNELL, 2014, p. 34)

Bibliografia – ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent theology. Routledge, 2002. BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2013. BURRUS, Virginia. “History, Theology, Orthodoxy, Polydoxy”. Modern Theology, v. 30, n. 3, p. 7-16, 2014. CRAIGO‐SNELL, Shannon. “Tradition on Fire: Polydoxy, Orthodoxy, and Theological Epistemology”. Modern Theology, v. 30, n. 3, p. 17-33, 2014. GEBARA, Ivone. Vulnerabilidade, Justiça e Feminismos. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2010. GEBARA, Ivone. Mulheres, religião e poder: ensaios feministas. São Paulo: Terceira Via, 2017.KELLER, Catherine; SCHNEIDER, Laurel (Ed.). Polydoxy: Theology of multiplicity and relation. Routledge, 2010. PUI-LAN, Kwok. Globalização, gênero e construção da paz: o futuro do diálogo interfé. São Paulo: Paulus, p. 21-32, 2015. RIBEIRO, C. DE O. As noções de Polidoxia e de diferenciais de poder no contexto da relação entre imaginários e diálogos inter-religiosos. HORIZONTE – Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 15, n. 45, p. 40-67, 31 mar. 2017 RUBENSTEIN, Mary‐Jane. “Introducing Polydoxy”. Modern Theology, v. 30, n. 3, p. 1-6, 2014. SCHNEIDER, Laurel. Beyond monotheism: A theology of multiplicity. Routledge, 2007

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