Os caminhos de um Cristianismo católico na Índia

Ninguém sabe ao certo quais foram os primeiros passos do cristianismo em solo indiano, o que se sabe é que o Cristianismo na Índia é antigo. A tradição católica e siríaca acredita que o Cristianismo foi levado à Kerala, Índia, pelo apóstolo São Tomé, que teria ido às terras indianas no ano 52 d.C, sob os auspícios dos Nestorianos (SAGAYARAJ, 2013, p. 124). Os “cristãos de São Tomé” são conhecidos como cristãos siríacos na Índia por, originalmente, ter sua liturgia na Síria e reconhecer a jurisdição do Patriarca Sírio do Oriente em Damasco (Síria) (SAGAYARAJ, 2013, p. 124).

Conta-se a tradição que suas pregações impactaram a área que hoje é conhecida como Meliapor, um subúrbio da antiga Madras – agora Chennai. Ao que se acredita, as conversões realizadas através da ida de Tomé à Índia foram majoritariamente entre as castas altas do Hinduísmo. As pregações de São Tomé levaram a uma crescente hostilidade e violência por parte de hindus ortodoxos, e em 72 d.C. ele teria sido atacado enquanto se escondia em uma caverna em Chinnamalai (SAGAYARAJ, 2013, p. 125).   De joelhos em oração, Tomé, segundo a tradição, foi martirizado na Parangimalai, conhecida agora como Montanha de São Tomé. Seu corpo foi enterrado em Meliapor, onde agora é a Basílica de São Tomé[1], em Chennai, Tamil Nadu. (ANTHONYSAMY, 2009, p. 74-90).

As atividades missionárias começaram somente após a chegada das igrejas que vieram com os comerciantes europeus. Muitas das rotas comerciais da Ásia para Europa eram por terra. Segundo Sagayaraj, três rotas da Ásia se encontravam em Constantinopla. E os comerciantes árabes eram aqueles que levavam os bens da Índia e de outros países asiáticos para vende-los na Europa (2013, p. 125). Portanto, Constantinopla não era apenas um centro Oriental ou da Igreja Ortodoxa, mas também era um grande centro de comércio. Então, em 1453 um desastre acontece; a queda de Constantinopla, que foi invadida pelos Turcos, levando o comércio na Índia a quase fechar suas portas. “Sem pimenta do Ocidente, as pessoas na Europa acharam suas comidas sem sabor. As rotas terrestres estavam bloqueadas. A resposta foi via o mar” (SAGAYARAJ, 2013, p. 124). Esse episódio, após a queda de Constantinopla, dá início as navegações europeias e ao desenvolvimento de melhores e maiores navios e instrumentos de navegação mais aprimorados. A Europa estava começando a explorar o mundo e agora os europeus tinham um novo objetivo para suas explorações: recuperar o sabor das suas comidas, seus artigos de luxo.

Encontrar a “Terra das Especiarias” se tornou um objetivo grande, visto que o preço havia aumentando drasticamente após o fechamento das rotas por terra. Então, em 1492, o Rei da Espanha envia Cristóvão Colombo para o oriente com o objetivo de encontrar as Índias Ocidentais. Porém, ele chegou até a América, desembarcando no continente americano em 1498 (CLIFF, 2013, p. 346).  Os portugueses navegaram para o sul e encontraram uma rota pela África do Sul. Vasco da Gama navegou para o porto de Kozhikode (Calecute) em maio de 1498. Levou para Portugal grandes quantidades de pimenta, gengibre, joias preciosas e outros bens. Uma nova rota comercial entre a Índia e a Europa foi aberta (WALPOLE, 1993, p. 20-21). Até então, os árabes eram os maiores comerciantes da Índia, porém com a entrada dos portugueses nas rotas marítimas o cenário mudou. Os portugueses controlaram as rotas de navegação por mais de cem anos, construindo centros em Goa, Kochi, Tuticorin, Chennai, como também o Sri Lanka (SAGAYARAJ, 2013, p. 124). Comerciantes e soldados, e suas famílias, se estabeleceram nesses centros. Seu objetivo principal de estar na Índia eram os negócios e o comércio. Mas a presença deles no país significava que mais cristãos estavam se estabelecendo na Índia (WALPOLE, 1993, p. 21).

 Bede Griffiths aponta que o evangelho trazido por Portugal, através dos soldados e políticos portugueses, serviu para fazer os indianos convertidos renunciarem todos seus costumes indianos (no qual era considerado contaminado pelo Hinduísmo) e se tornarem, o quanto mais possível, portugueses. Eles foram obrigados a mudarem de nome e a adotarem hábitos europeus de vestimentas e alimentação.  (1984, p. 57).

Não só todas as formas de religião, liturgia, teologia e rígidos padrões de costumes ocidentais de devoção, como também todas as formas externas, igrejas, estátuas, pinturas e músicas, foram cópias fiéis de modelos ocidentais. Exagerar os efeitos promovidos na Igreja na Índia é difícil. (GRIFFITHS, 1984, p. 57)

Já entre o século XVI, os missionários jesuítas foram para Goa e lá fizeram sua base missionária, pois o Império português havia tomado conta do estado de Goa e foi se espalhando para outras partes ao sul da Índia indo até o Sri Lanka. Nessas movimentações, inevitavelmente, eles encontraram os “cristãos de Tomé” que foram “convidados” a romperem os laços com a Igreja Nestoriana e passar a pertencer sob a jurisdição de Roma. Essa pressão levou a uma divisão: metade da comunidade cumpriu e começou a fazer parte da jurisdição romana, enquanto outra metade reafirmou a lealdade ao Patriárca Sírio de Antioquia (SAGAYARAJ, 2013, p. 124). Uma outra questão que discórdias e discussões entre os “cristãos de Tomé”, assim como os missionários jesuítas, era se o evangelho devia ser propagado apenas em castas superiores, se a casta realmente deveria ser considerada uma instituição religiosa e, assim sendo, abolida, ou se era apenas um arranjo social secular, que portanto, poderia ser tolerado  (MADAN, 2011, p. 213). Infelizmente, essas questões de casta se fazem quase ausentes nas temáticas do diálogo inter-religioso entre hinduísmo e cristianismo, como veremos mais à frente no decorrer desta pesquisa.

Os portugueses eram Católicos Romanos. Então, as congregações que eles estabeleceram por eles mesmos nos centros comerciais seguiam os ritos e práticas dos missionários Católicos.  No ano de 1542, um missionário chamado Francis Xavier chega as terras indianas. Ele passou muitos anos com os pescadores na costa de Coromandel, milhares de pessoas foram batizadas por ele. Anos depois, Roberto de Nobili chega a Índia e começa a trabalhar com pescadores antes de ir a Madurai. Nobili sentia que os portugueses estavam fazendo que os “seus cristãos” se convertesse ao Ocidente (SAGAYARAJ, 2013, p. 125). Então, o missionário português começa um empreendimento para deixar a Igreja mais indianizada, ele passou a viver como um Sannyasi indiano – guru. Assim, a Igreja Católica se espalhou por toda Índia. E ainda é hoje a maior igreja cristã no país. (WALPOLE, 1993, p. 22)

Por controlar as rotas comerciais no Oriente, Portugal, por mais de cem ano, era um dos países mais poderosos na Europa. Porém, algumas mudanças no poder vieram na Europa; outros países como Inglaterra, França, Holanda e Dinamarca também queriam partilhar das riquezas do Oriente, assim, gradualmente, também estabeleceram centros comerciais na Índia. Quando a Companhia Inglesa das Índias Orientais foi formada em 1600, capelães anglicanos foram indicados para os navios comerciais e depois para os centros de comerciais. Assim, a St. Mary’s Church in Fort St. George, foi a primeira e mais antiga igreja protestante construída na Índia, 1680, foi o marco da vinda da Igreja Anglicana em Madras (SAGAYARAJ, 2013, p. 125).

Em 1620 a Dinamarca começa seu centro comercial em Tarangambadi e sua colônia foi estabelecida. A maioria dos dinamarqueses eram luteranos, e então, a Comapania Dinarmarquesa construiu uma pequena igreja para eles e proveu capelães luteranos. Após esse período, três grandes ramos do Cristianismo se estabeleceram em solo indiano, Igreja Católica, Igreja Ortodoxa e Igreja Protestante. Segundo Walpole, apenas a Igreja Católica se mostrou preocupada com o bem-estar espiritual dos indianos. Isso foi aproximadamente cem anos antes da Igreja Luterana, a primeira Igreja Protestante a enviar missionários para trabalhar na Índia, se tornar realmente interessada na obra missionária entre os indianos (1993, p. 23)

Introduziremos dois missionários católicos que foram importantes para a expansão e início do cristianismo na Índia:

1.2 Francisco Xavier

Francisco Xavier foi um missionário católico português, como já introduzido acima, seu trabalho na Índia levou a conversões ao cristianismo. Segundo Sagayaraj, durante a primeira parte de sua carreira missionária, Xavier enfatizou a importância de tradução, que já é uma forma de adaptação (2013, p. 121). Xavier insistia na tradução de orações e hinos para língua locais, rompendo com a situação de “ter que” aceitar a língua e a cultura portuguesa juntamente com a fé (BEVANS & SCHROEDER, 2004, p. 184-185).

Entretanto, Bede Griffiths critica o posicionamento de Francisco Xavier, que mesmo santo e patrono de missões para a Igreja Católica, não ficou isento de discriminação.

Na verdade, encontra-se na Índia, como em todo lugar, nenhuma tentativa para entender a religião das pessoas para quem o evangelho era pregado. Ao contrário, era geralmente tratada com o maior desprezo e condenação, sem consideração como ‘paganismo’ e ‘idolatria’ […] Mesmo um homem sagrado como São Francisco Xavier, patrono das missões católicas, não fez nenhuma tentativa contra a discriminação. Para ele, todos os hindus, e especialmente os Brâmanes, eram ‘adores do diabo’, os budistas eram ‘ateístas’, os muçulmanos eram ‘infiéis. (GRIFFITHS, 1984, P. 58)

1.2 Roberto de Nobili

Entretanto, sempre há algumas exceções, entre elas está Roberto de Nobili. Nascido na Itália em 1577, Nobili chega em Tamil Nadu, Madurai em 1606. Ele encontrou em Madurai um padre português, Gonzalvo Fernandez, que trabalhou por onze anos sem fazer nenhuma pessoa convertida. Sua missão era trabalhar com os pescadores pobres, pessoas das quais São Francisco Xavier já havia trabalhado anos antes (GRIFFITHS, 1984, p. 59). De Nobili imediatamente mudou isso, pois descobriu que ser cristão era o mesmo se se tornar estrangeiro, seguindo os costumes dos portugueses, comendo carne, mudando as vestes, nomes e por assim vai. Fernandez considerava todos os costumes indianos como superstições e contrárias ao evangelho (BEVANS & SCHROEDER, 2004, p. 189). E dessa maneira, Fernandez era considerado um parangi. Esse era um termo pejorativo que os indianos davam aos estrangeiros, pessoas que comiam carne, bebiam vinho, arrogantes, e que viviam de uma maneira diferente da indiana. As relações sociais com um parangi era impensada.

Seguindo os modelos de i) Alessandro Valignano, que desenvolveu um modelo de missão fundado no “il modo soave”. Começando no Japão, ele insistiu na importância de preparar e aceitar os japoneses para o sacerdócio. Considerava de grande valia a tradução das escrituras, catecismos e orações para a língua local – prática iniciada por F. Xavier – e acomodar o estilo de missão e igreja nos termos da arquitetura, vestimentas, dietas e formalidades sociais (SAGAYARAJ, 2013, p. 121); e ii) Matteo Ricci, foi um missionário jesuíta na China, vivendo como um mandarim e estudando chinês clássico, ele foi ganhando a uma escuta simpática entre os mais letrados e religiosos chineses (GRIFFITHS, 1984, p. 59). Também adotou as vestes e o estilo de vida de um monge budista (SAGAYARAJ, 2013, p. 121). Ricci teve a “oportunidade de dar bases para um casamento entre a fé cristã e o confucionismo, da mesma maneira que Thomas de Aquino fez com o Aristotelismo “ (BEVANS & SCHROEDER, 2004p. 187). Nobili acreditava que ser indiano e ser cristão não eram coisas incompatíveis, e ele precisou se adaptar a sociedade indiana. De Nobili trabalhou em Tamil Nadu, uma região no Sul da Índia entre Kerala e a antiga Madras (Chennai) (GRIFFITHS, 1984, p. 59) Se dedicou aos estudos das línguas locais, como tâmil e télugo, e estudou sânscrito para poder conhecer os escritos sagrados hindus – foi o primeiro europeu a aprender sânscrito. Ele assumiu a vida como um verdadeiro sannyasi (quem renuncia tudo para buscar a vida espiritual), um estilo de vida austero, vestindo os mantos de açafrão, vivendo de esmolas, não se alimentando de carne e dedicando-se a uma vida de meditação e oração (SAGAYARAJ, 2013, p. 122).


[1] Em fevereiro de 2018, conheci a tradição de São Tomé na Índia com meus próprios olhos. Estive em Chennai, no estado de Tamil Nadu. Visitei a Basílica de São Tomé e a Montanha de São Tomé em Meliapor. A tradição permanece viva e há muitos seguidores de São Tomé na Índia e peregrinos que viajam até a Basílica e Montanha para obter milagres e graças.


ANTHONYSAMY, S. J. 2004(2009) A Saga of Faith: St. Thomas, The Apostle of India, Chennai: National Shrine of St. Thomas Basilica

BAUMER-DESPEIGNE, The Spiritual Journey of Henri Le Saux Abhishiktananda, Cistercian Studies, 310-329. 1983

CLIFF, Nigel. Guerra Santa. Globo Livros, 2013.

GRIFFITHS, Bede. Christ in India: essays towards a Hindu-Christian dialogue. Scribner, 1984.

MADAN, T.N. 2011 “Religions of India: Christianity”, in Das, Veena (ed.), Hand Book of Indian Sociology, New Delhi: Oxford University Press, pp. 203-220

SAGAYARAJ, Antonysamy. Christianity in India: A focus on inculturation. Research Papers of the Anthropological Institute, v. 1, n. 2, p. 114-142, 2013

WALPOLE, Beth 1993 Venture of Faith: A Brief Historical Background of the Church of South India, Chennai: The C.L.S Press

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