Marta e Maria ou os dois pássaros na árvore

Jesus e os seus discípulos seguiam seu caminho até que chegaram a um certo povoado. Ali uma mulher chamada Marta, amiga de Jesus, ofereceu-lhes hospedagem. Ela tinha uma irmã que se chamava Maria, e esta sentou-se aos pés do Senhor e ouvia atentamente o que ele ensinava. Marta por sua vez, agitada, corria de um lado para o outro, executando as tarefas domésticas. O fato de Maria estar absorta aos pés de Jesus a deixou tão incomodada que Marta chegou para Jesus e protestou: — O senhor não se importa que a minha irmã fique aí sem fazer nada e me deixe aqui fazendo tudo sozinha? Mande que ela venha me ajudar. Mas o Senhor respondeu: — Marta, Marta, você está ansiosa e preocupada achando que precisa fazer muita coisa, mas na verdade, neste exato momento, há uma única coisa importante a fazer e Maria escolheu justamente essa que é a melhor de todas, por favor, não queira roubar isso dela. (Lucas 10.38-42)


 

Marta e Maria moravam em Betânia, uma aldeia muito próxima de Jerusalém, a cerca de três quilômetros de distância. A aldeia não era nada de extraordinário, era insignificante em comparação com a cidade rica e moderna de Jerusalém, onde ficava o templo e o famoso palácio de Herodes, ocupado depois por Pilatos, o procurador romano que tentou Jesus e condenou-o à morte (Elsa Támez, 2000). Seus discípulos considerava uma cidade perigosa, afinal havia as autoridades judaicas e romanas que queriam capturá-los. Mas, Jesus sempre encontrava refúgio na casa de suas amigas Marta e Maria e de Lázaro, irmão delas, e amigo de Jesus. Parece que ele gostava de ir visitar essas duas amigas e seu irmão Lázaro, entrar em casa, sentar e conversar com eles e com ele sobre coisas importantes do movimento por horas a fio. Aliás, elas, Marta e Maria, aparecem nas histórias mais do que o irmão Lázaro e são mais ativas. E claro, Jesus amou muito os três.

Sempre quando ouvimos essa história fazemos a dicotomia simplista entre Marta e Maria, as colocando em opostos muito distintos. Elevando Maria e não valorizando o trabalho de Marta. Mas, uma leitura dessa parte de uma visão elitista, afinal, como mulheres latino-americanas somos como Marta, atarefadas com inúmeras coisas: levar o pão para os nossos filhos, sobreviver em um Brasil que tem taxas altíssima de feminicidio, lutar por igualdade de gênero e contra o racismo, entre os cotidianos nada fáceis da vida de uma mulher.  Marta e Maria eram discípulas e seguidoras de Jesus, coisa incomum para época as mulheres sentarem aos pés de mestres, mas além de discípulas eram amigas dele. Marta queria oferecer o melhor para aquele momento, porém acabou se atrapalhando um pouco com as coisas e não aproveitou aquele tempo de comunhão com os amigos e amigas, trocou o urgente pelo importante (Luis Carlos Ramos, 2016). Marta tinha um relacionamento profundo com Jesus, até por isso confessou em João 11:27 que Jesus era o Filho de Deus que devia vir ao mundo mas só lembramos da confissão do homem Pedro, por que será? A leitura patriarcal da Bíblia não ressalta essa linda confissão de Marta.

O movimento de Jesus é transformação e luta contra as injustiças, mas também é afago, afeto, comunhão. É preciso desse momento de se sentar e ouvir. Jesus lembra Marta que é preciso se acalmar, que é nos encontros que nos fortalecemos para ação. A vida anda meio torta, temos sido bombardeados de informações, forçados dar opiniões em tudo, sem tempo para processar e ver, de fato, o que tem acontecido. E Jesus nos convida, assim como convidou Marta, a aprender a ver. É preciso desse discipulado íntimo com Jesus.

E então, lembro aqui do texto da Mundaka Upanishad, um dos Escritos Sagrados indianos, que diz: “Como dois pássaros de plumagem dourada, inseparáveis companheiros, assim se empoleiram nos galhos da mesma árvore. O primeiro prova as frutas doces e amargas da árvore; o último, nada experimentando, observa calmamente.” (Mundaka Upanishad 3,1,1).

Os dois pássaros inseparáveis somos nós, nas nossas contradições e complementos. E em ambos os passáros Deus lá está. O primeiro passáro, Jivatma (o Eu individual) desfruta dos sabores da vida -bons e ruins-, sendo ativo, trabalhando, transformando, lutando. Porém este, por vezes é preso na ignorância (avidya), no prazer (kama) e na ação (karma), se desiludi, desespera, sofre. O segundo passáro, Paratma (o Eu divino), apenas contempla, vendo Deus e unindo-se a ele, liberta-se do sofrimento e das impurezas, ele compreende o valor da contemplação.

O que é contemplar? Contemplar é uma ação em relação a algo. A contemplação é um ato de interiorizar o objeto contemplado, é um encontro de realidades que produzem uma nova realidade. Realidades que se chocam, se misturam e se alteram. O estado de contemplação permite observar o invisível e nos abre para uma visão mais clara da vida e de suas ambiguidades. Se enganam aqueles que pensam que a contemplação é viver na exclusão e abstenção da realidade, pelo contrário, é viver a realidade em sua plenitude e responsabilidade.

O Brasil de hoje leva, muitas vezes, ao desespero e não possibilita uma visão ampla, as luzes do século cegam a compreensão de uma realidade complexa. Há uma necessidade da contemplação, da quietude, como Lao Tsé uma vez perguntou “Você tem paciência para esperar a lama assentar e a água ficar limpa?”. A água não está limpa, estamos a vendo lamacenta pelas inúmeras injustiças que tem ocorrido no nosso país e no mundo. Não estamos esperando a água se acalmar em nós para podermos criar novas possibilidades de ser no mundo enquanto sociedade. “Sem esse recolhimento contemplativo, o olhar perambula inquieto de cá para lá e não traz nada a se manifestar” (Byung Chul-Han, 2017).

O silêncio é uma potência criativa para a revolução e emancipação da sociedade. O silêncio é o útero da mudança. Cultivar o silêncio é gestar mudança. Em primeiro lugar, a nossa própria mudança. A lama que se assenta, se assenta primeiro em nós. Vemos assim, talvez pela primeira vez, quem realmente somos.  A autoconsciência permite ver o que deve ser mudado em nós, quais são as nossas contradições, complicações e é um caminho para uma reconciliação com nós mesmos. E apenas quando estamos reconciliados com o nosso próprio ser é que conseguimos nos reconciliar com o nosso próximo, com o mundo.

Nos evangelhos diversas vezes Jesus se retira para o monte, para seu momento de contemplação. Jesus também nos ensina a olhar! “Olhai os pássaros, Olhai os lírios dos campos”. Olhar é um ato político! Como estão nossos olhos? Movimentando-se desenfreados e sem uma direção? Ou com um olhar certeiro no que realmente importa? Não podemos permitir que nosso olhar seja manipulado pela política, mídia, rede social. Precisamos olhar para o que é importante para que assim possamos trabalhar com efetividade no que é urgente.

Ao cultivar o silêncio cultivamos nossos gritos. Silêncio e contemplação não têm ligação com a passividade, mas com uma ação verdadeiramente transformadora. Os gritos que são cultivados no nosso silêncio são aqueles que denunciam todos os aspectos de injustiça, desigualdade, racismo e preconceitos. Com o silêncio observamos mais profundamente as raízes das injustiças, as estruturas de poder e coerção e as manipulações presentes em todas as esferas da vida. O silêncio não é o calar, o abster-se da vida, mas antes é o que possibilita a transformação da sociedade através de uma clareza de realidade e luta. Se desesperar diante uma situação de caos não soluciona o problema, o silêncio e contemplação permitem olhar para o mesmo problema com uma visão diferente. E através dessa visão límpida da realidade procurar novas formas de luta e soluções para os problemas vigentes.

“Marta, Marta… Senta aqui um pouco, acendi um incenso. Vem tomar um chá. Depois vamos todos juntos arrumar a casa, lavar a louça, podemos fazer mais pães depois. Senta aqui com a gente, vem partilhar a vida, a comunhão, beber um chá, uma cerveja. Quem sabe depois não vamos à uma roda de samba?”

Somos Marta e Maria. Somos os dois pássaros na árvore. E é nesse equilíbrio que temos que nos encontrar. Através das práticas contemplativas cultivamos gritos e ações certeiras contra a injustiça. Toda oração deve nos levar a compaixão. Marta e Maria dançam em nosso peito, unidas, juntas, se ajudando a encontrar o caminho do meio. E enquanto isso os dois pássaros na árvore nos abençoam com o seu canto e vôo.

*  Sermão proferido em 24 de março de 2019 na Igreja Batista do Caminho no Rio de Janeiro.

Referências

HAN, BYUNG-CHUL. Sociedade do cansaço. 2 edição ampliada. Petrópolis: Ed. Vozes, 2017, p. 33

TAMÉZ, Las Mujeres en el Movimiento de Jesús, el Cristo, Sociedades Bíblicas, Uruguay 2000, pp. 13 – 14, 40 – 47.

RAMOS, Luiz Carlos. O urgente e o importante. Disponível em < https://www.luizcarlosramos.net/o-urgente-e-o-importante/ >, 2016.

MUNDAKA UPANISHAD

BÍBLIA SAGRADA

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