Festa da carne

 

“Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual” – Novos Baianos

Som dos Novos Baianos tocando, corpos de mexendo, é tempo de festa! Festa da Carne. Festejar. Corporizar. Encarnar o próprio corpo. O mistério da Encarnação é esse encanto de corporificar a nós próprios. O próprio Deus se corporificou e habitou entre nós. Festejou. Fez o inebriante vinho de Caná. Se fartou nas mesas, festas. Era considerado o beberrão e o comilão. Esse Deus carnavalesco é um Deus que se corporificou e festejou com corpo.

A espiritualidade não é a negação do corpo. Pelo contrário, a espiritualidade se faz na experiência do corpo. “O corpo humano, vivo, centro de todas as relações, corpo do qual partem os problemas e para o qual tendem a convergir todas as soluções”(GEBARA, 2016).  Descorporificamos Deus, tiramos dele a humanidade, ele se tornou abstração pura, o Além, Inalcançável. E isso nos faz perder a dimensão de uma espiritualidade do cotidiano, das pequenas coisas da vida, do simples gargalhar. Esvaziamos Deus da humanidade, enquanto Deus se esvaziou da divindade. Deus é Deus do corpo, é “um Deus promíscuo cujo amor circula sem limites e sem leis que o contenha. Um Deus que sai de sua centralidade divina para se unir com os marginalizados” (ALTHAUS-REID, 2016).

A dimensão do Reino de Deus é a grande festa dos marginalizados, excluídos, humilhados. Um banquete, um festejo! Fartando o corpo, embriagando com o vinho celestial, dançando no ritmo do samba. A infelicidade e a injustiça já não operam mais, pois o Deus-humano-carnavalesco celebra conosco! Vale lembrar que na igreja primitiva havia uma celebração festiva chamada Ágape, uma deliciosa refeição comunitária.  “Celebrava-se a festa com grande alegria e todos preparavam as refeições e as traziam para compartilhar naquele momento especial. Celebrar a festa do amor é uma maneira de dar graças a Deus pela vida, pelo alimento e pela alegria, por isso os cristãos chamavam de eucaristia (ação de graças) a Ceia do Senhor, que deve ser uma festa” (TAMEZ, 2016).

A festa do amor, a festa dos corpos, a festa da carne! A celebração da vida, da alegria. Carnaval. Temos que resgatar o aspecto da nossa espiritualidade festiva, celebrar nossos corpos, o movimento. A espiritualidade que não se move, estagna, paralisa, morre, seca. Nosso Deus é um Deus de e em movimento, se movimenta pela vida no sopro do vento, no voo dos pássaros, no pular de um sapo, no cair da chuva, na rua entre as pessoas, nas rodas de samba, nos bloquinhos pelas cidades do Brasil. Viver é se movimentar, então, iremos, com os nossos corpos, nos mexer, dançar, pular, gritar, gozar, protestar, chorar, brincar, rir e, claro, celebrar!

Bom carnaval!

Referências Bibliográficas

ALTHAUS-REID. “Marx em um bar gay: a teologia indecente como uma reflexão sobre a Teologia da Libertação e sexualidade. ”. In RIBEIRO, Cláudio (org). Rasgando o Verbo – Teologia Feminista em foco. São Paulo – Fonte Editorial, 2016.

GEBARA, Ivone. “Corpo, novo ponto de partida da teologia”. In RIBEIRO (org), Cláudio. Rasgando o Verbo – Teologia Feminista em foco. São Paulo – Fonte Editorial, 2016.

TAMEZ, Elsa. “A festa como uma experiência sagrada” In RIBEIRO (org), Cláudio. Rasgando o Verbo – Teologia Feminista em foco. São Paulo – Fonte Editorial, 2016.

 

Texto publicado originalmente da coluna  espírito&atualidade em 24-01-2017.

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