A redenção e a doutrina

“Ninguém chega à redenção mediante a doutrina” – Hermann Hesse, Sidarta, 1922

Para começar…

Ao que me parece a fé cristã foi reduzida à um credo intelectual. Para ser considerado “cristão” você necessita professar uma fé, dita, “ortodoxa”. Não pode ter nada fora da ortodoxia, senão, é só chamar algum teólogo para colocar “ordem na casa”. Afinal, é para isso que existem os teólogos, não? Ditar o que se deve, ou não, acreditar. Purificar a crença. Os teólogos existem para julgar as ideias e condená-las. Bem, isso é o que dizem…

Em seu texto “A sedução da ortodoxia“, Paulo Brabo diz que a relação do cristianismo com a ortodoxia se tornou idolatria. É o que ele chama de “Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – [que] é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona.” (2006). Brabo escreveu esse texto há 10 anos atrás, mal sabia do que seria do cenário religioso atual.

A utilização da palavra Deus se tornou banal, manipulável. Pode-se usar “Deus” para justificar uma guerra, para torturar pessoas, para excluir os “diferentes”, qualquer coisa. Como diz a teóloga Ivone Gebara, Deus se torna uma palavra associada ao poder. Posso julgar sua teologia e condená-la em nome de Deus, posso dizer que você não é cristão em nome de Deus, afinal, “Deus está do nosso lado”.

A questão levantada por Bonhoeffer no período da Segunda Guerra Mundial foi: “Como falar de Deus sem religião?” Leonardo Boff responde essa pergunta com a citação de Dom Pedro Casaldáliga : “Se um opressor diz Deus eu lhe digo justiça, paz e amor, pois esses são os verdadeiros nomes de Deus, que ele não vive. Se o opressor disser justiça, paz e amor, eu lhe digo Deus, porque Deus desmascara sua justiça, paz e  seu amor, porque são falsos”. Penso eu que o que pode salvar a religião hoje é a mística. Partilho da ideia do teólogo Karl Rahner:  “O cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”.

Para refletir…

A reflexão a seguir será sobre a obra do escritor alemão Hermann Hesse, um dos escritores mais interessantes do século 20.  “Em 1921 Hesse começa a escrever “Sidarta”, o qual teve que interromper em virtude de um bloqueio psíquico. Hesse cai em profunda depressão. Começa a sua segunda análise psicanalítica, dessa vez, com o renomado psiquiatra C. G. Jung. Em 1922 termina e publica “Sidarta”, sobre o qual Henry Miller escreveu: “Sidarta é, para mim, um medicamento mais eficiente do que o Novo Testamento”.” (WELZEL). Neste livro o autor narra a história do jovem Sidarta em busca da plenitude da espiritualidade. É inspirado na história do  Siddhartha Gautama, o Buda. Hesse deixa preciosas lições a respeito da espiritualidade e da maneira de se relacionar com o divino. Seu livro conversa com vários místicos e várias Escrituras Sagradas.

1 “Ninguém chega à redenção mediante a doutrina!” (p.33)

A teologia é, ou deveria ser, algo leve. Uma brisa suave que refresca a alma. São lentes que  nos fazem enxergar melhor a Beleza da Vida. É um estudo daquilo “através do qual percebemos o imutável”. É vivenciar o Divino através do estudo. O estudo da teologia não tem que ser árido, embora possa haver momentos de aridez espiritual. Mas, pelo contrário, deve inspirar poesia e beleza. Entretanto, sabemos que por muitas vezes a teologia torna-se um peso e um elemento de opressão, fazendo com que ao invés de encontrar refrigério as pessoas encontrem condenação.

Jesus lidava com muitos “ditos teólogos”, na época eram os fariseus, os escribas, mestres da lei. O povo estudado que ficava palpitando na fé alheia com a desculpa de estar fazendo a vontade de “Deus”. “Purificando a religião” colocavam pesos doutrinais nas costas do povo. Bem dizia Jesus: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.” (Jo 5:39,40). Não compreendiam a leveza de tal homem que tirava os jugos pesados dos que estavam sobrecarregados e dava sua Palavra, seu Maná Divino, sua vida.

” Vivendo no abismo da ignorância, porém sábios em seu próprio conceito, os iludidos dão voltas e voltas, como cegos levados por cegos. Vivendo no abismo da ignorância, embora sábios em seu próprio conceito, os iludidos se crêem abençoados. Apegados a palavras, não conhecem Deus […]” (Mundaka Upanishad)

Recentemente li uma frase do Moltmann que dizia: “Deus se tornou em Cristo não um livro, mas sim, um ser humano”. E esse ser humano espetacular quebrou muitos paradigmas sociais e religiosos da época, afinal, era um ser humano bem livre. E, penso eu, que a vida dele foi bem clara quanto à salvação: Relacionamento. O ápice para a teologia cristã é o Emanuel, aquele que está conosco. O Doador de Vida que estabelece as tendas em nosso meio para habitar nesse mundão. Jesus não deixou uma teologia sistemática da salvação, ele deixou a si mesmo. Veio a terra com “amor doador de vida”, sustentando todas as coisas , perfumando e dando sabor à vida (BG 15:13).  A redenção trata-se, da palavra em sânscrito, Bhakti, devoção, relacionamento. E esse relacionamento não é, como nenhum outro, baseado em doutrinas, mas em amor. Amor que purifica o coração, os olhos, a mente. Que faz dois virarem um.

Recentemente o teólogo Carlos Arthur Dreher escreveu um texto sobre oração e questionou: “Por que será – ou estou enganado – que as pessoas que estudam Teologia, no geral, perdem aquela sua devoção original, de bons cristãos, que, de tão devotos, resolveram estudar Teologia e colocar-se a serviço do Senhor?”

2. “Siddharta começava a vislumbrar o motivo por que não conseguira vencer àquele “eu”, nem como brâmane, nem como penitente. O que o impedira fora o excesso de erudição, de versículos sagrados, de rituais, de sacrifícios, de ascetismo, de atividades e de ambições; Sempre se pavoneara com altivez; sempre quisera ser o mais inteligente, o mais zeloso; se empenhara em tomar a dianteira; sempre se exibira nos papéis de sábio, de intelectual, de sacerdote, de filósofo.” (p.83)

O conhecimento é poder. E poder gera altivez, orgulho. O conhecimento que não é humilde “é orgulhoso e nada entende. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes entre pessoas que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro (1 Timóteo 6:4,5). Lembro-me das primeiras aulas de teologia sistemática com o professor Jonathan Luís Hack, ele dizia que verdadeira e boa teologia é sempre acompanhada da piedade.

“Não se glorie o sábio em sua sabedoria […] mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me “. (Jr  9:23-24).

A relação com o Divino não vem do consumo de livros, serviços religiosos ou qualquer coisa do gênero, mas sim vem de uma vida em harmonia com Ele. A palavra em sânscrito buddhi significa intelecto, quando o intelecto é iluminado pela Graça Divina dizemos que a pessoa é Buda, pois alcançou a iluminação. O caminho para iluminação é a entrega total do ‘eu’ ao Absoluto.

Os escritos do  Evágrio Pôntico na Pequena Filocalia dizem: “O estado de oração é um “hábito” impassível que, por um amor supremo, arrebata aos cimos intelectuais a inteligência possuída pela sabedoria.” (v. 52) “Se és teólogo, vais orar verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo” (v. 60). O padre do deserto diz que a inteligência é sujeita à paixões (v.71), que limita as coisas a conceitos (v. 68) e por isso para uma vida de espiritualidade plena é necessário prudente na oração, para que nada possa se interpor no relacionamento com o Criador.

Pois está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes”. Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem. Irmãos, pensem no que vocês eram quando foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre nascimento. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são, para que ninguém se vanglorie diante dele.
1 Coríntios 1:19-29

3.  “Talvez seja esta razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras” (p. 121)

Nossa espiritualidade se perde quando tentamos comunicar o incomunicável. Usando jogos de linguagens queremos limitar e delimitar até onde a Graça, o Amor, a Ação vão. Nos preocupamos mais em manter a nossa “gnose da fé” e demonizar os outros do que mergulhar nas águas do Espírito. A idolatria da linguagem e da ortodoxia tem feito com que a experiência religiosa, que é mística, se torne em algo rígido, frio e intelectualizado.

“Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência”  (BRABO, 2006). As crianças não teorizam sobre as coisas, elas experimentam. Não que a teoria seja de todo o mal, mas como disse Hesse, não há redenção nelas. Saber que um remédio existe e estudar toda composição da bula não nos torna sãos. É preciso tomá-lo, experimentá-lo. Quando compreendemos a nossa incompetência ao lidar com o Divino é quando podemos experimentá-lo mais livremente. Sem dogmas, sem religião, sem livros. Simplesmente o puro Amor. O poeta e místico sufista, Rumi, escreveu em um de seus poemas:

“Maomé disse, “Não teorize
sobre a essência!” Toda especulação
é apenas mais uma camada na superfície.
Seres humanos amam a superfície!”

Sobre a citação de Hesse acrescentaria também o excesso de pensamentos. Deus pode ser amado, mas não pensado! Como diria o grande teólogo Alberto Caeiro: “Pensar em Deus é desobedecer a Deus”. É fácil nos apegarmos à uma imagem criada de Deus, e assim, adorarmos a nós mesmos. Que façamos todos a mesma oração: “Deus, livra me de Ti!” Toda imagem ou discurso sobre “Deus” é um ídolo. Pois isso a palavra “Deus” e as imagens de “Deus” devem ser deixadas na nuvem do esquecimento.  Uma grande obra do misticismo cristão trabalha nessa perspectiva: “A Nuvem do não-saber”.  Nesse precioso livro há um trecho que diz:

“Mas homem nenhum pode pensar em Deus como Ele mesmo. Por isso, é meu desejo abandonar tudo sobre o que eu possa pensar, e escolher para o meu amor a coisa na qual eu não possa pensar. Porque ele certamente pode ser amado, mas não pensado. Ele pode ser arrebatado e retido por amor, mas não pelo pensamento” (1987, p. 43)

A experiência de Paz é aquela que cessa o pensar e o falar. É o maravilhamento da criança. É simplesmente sentir o fluir do Amor correndo pelas veias e permeando toda a humanidade e Criação. Não é preciso defender sua crença, purificá-la ou condenar àqueles que não vivem de acordo com ela. É necessário vivê-la, experimentá-la, pois o ponto comum das diversas tradições religiosas é o Amor.

O rabino Aryeh Kaplan em seu livro “Meditação Judaica – um guia prático” diz em alguns trechos da sua obra:

“O mais próximo do pensar em Deus a que podemos chegar é retratar o Nada e perceber que, atrás dele, está Deus. É por esse motivo que a meditação sobre  Nada é vista como um meio de se aproximar de Deus” (2010, p.112)

“Deus é mais real do que qualquer coisa existente. Contudo, como não há alguma coisa na mente humana que possa ser relacionada com Deus da forma como Ele realmente é, o Nada é o que há de mais próximo de uma percepção do Divino que podemos alcançar” (2010, p. 113)

Cessar o pensar. Calar. Deixar o espírito orar ao Espírito com os gemidos inexprimíveis. Calar. Viver na profunda relação com o Divino. Calar. Contemplar a beleza das diversas religiões e das diversas formas do Absoluto. Calar. Se fundir junto ao oceano de compaixão celeste que habita no Universo.

Voltar à tradição mística do cristianismo é o caminho para recuperar da espiritualidade não dogmática e verdadeira. Menos palavras e julgamentos. Não tentar dominar a verdade. No último encontro com a teóloga Ivone Gebara ela disse: “Cada tradição religiosa contém uma verdade sobre o ser humano. A imagem da verdade é como se fosse um vaso de barro que recebe tanta luz que se quebra. E cada caco contém a verdade, mas não toda a verdade.Ninguém possui todos os cacos, ou seja, ninguém possui toda a verdade. Mas todos nós possuímos um caquinho. Para sermos chão e luz do mundo.” A doutrina da redenção é não se apegar a doutrinas, pois elas passam e mudam conforme o tempo. A única coisa imutável é o amor. E é isso que consiste o cristianismo: Amar ao Divino, no próximo.

Para concluir…

Paráfrase de Romanos 8:8-39

Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os dogmas, nem os “ortodoxos” e fundamentalistas, nem as igrejas, nem o Estado, nem os falsos profetas e líderes religiosos corruptos, nem a guerra, nem o presente, nem o futuro, nem o passado, nem a mídia, nem os preconceitos, nem a intolerância. NADA!. Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio do Nazareno, nosso mestre.

Para sentir…

“Abandone esta entoação de cânticos
e esta contagem de rosários!
A quem você adora neste canto escuro e solitário
deste templo de portas fechadas?
Abra os seus olhos e observe,
seu Deus não está aí”

Ele está onde o lavrador cava a terra dura
e onde o construtor de caminhos está quebrando suas pedras.
Ele está com eles no sol e na chuva,
e suas vestes estão cobertas de poeira;
Abandone seu manto eclesiástico e faça como ele,
vá cultivar o solo!

Libertação? Onde se deve encontrar esta libertação?
Nosso mestre tomou alegremente sobre si os encargos da criação;
ele está conectado a todos nós, para sempre…

Saia das suas meditações
e deixe de lado suas flores e incensos!

O que importa se as suas vestes se rasgam ou mancham?
Vá encontrá-lo
e fica com ele na lavra
e no suor da sua fronte.

Gitanjali, 11.  Rabindranath Tagore, 1910.

Para ouvir e meditar…

 

Bibliografia

Prabhavananda, S. “Os Upanishads” Disponível em <http://estudantedavedanta.net/Os-Upanishads-Traduzido-por-Swami-Prabhavananda-Portugues.pdf&gt; Acesso em < 16 de ago de 2016>

BRABO, P. “A sedução da ortodoxia”, 2006. Disponível em <http://www.baciadasalmas.com/a-seducao-da-ortodoxia/>  Acesso em < 19 de ago de 2016>

http://www.revistabula.com/4688-hermann-hesse-o-guru-dos-hippies/&gt; Acesso em <18 de ago de 2016>

Tao Te Ching.

RUMI. “A dança da alma”. Poemas reunidos por Rafael Arrais, 2013.

TAGORE. Gitanjali. Org. Rafael Arrais, 2014.

HESSE, H. Sidarta. São Paulo: Best Bolso, 2012.

Desconhecido. A Núvem do Não-saber. São Paulo: Paulinas, 1987.

KAPLAN, A. Meditação Judaica – um guia prático. São Paulo: Ágora, 2010.

Bíblia

Vários autores. A Pequena Filocalia: Um livro clássico da Igreja Oriental.  São Paulo: Paulus, 2013.

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