Sobre o silêncio…

Começo esse texto com uma história de um querido amigo monge. Ainda quando bem jovem ele sentiu o chamado para a vida monástica, uma vida de constante oração e contemplação. A busca foi intensa e logo soube de um mosteiro em sua cidade, tal mosteiro ficava muito afastado de sua casa, porém o aspirante a monge andou quilômetros e  quilômetros até chegar ao destinado lugar.  Ao chegar queria conversar com alguém que lhe pudesse orientar e ajudar nessa jornada a ser percorrida, entretanto, ninguém podia atendê-lo naquele momento. E então, esperou.

Sentado em um banco, contemplando a maravilha da natureza que cercava o mosteiro, meditava e simplesmente respirava. Após algumas horas de espera, um velho monge sentou-se ao seu lado. Sem nada a dizer, por horas a fio, contemplaram juntos a Criação . E depois tempos sentados juntos, em um silêncio fraternal, o monge encostou a cabeça na cabeça do jovem aspirante. Eis que houve o diálogo mais profundo da vida desse meu amigo monge. Um diálogo além das palavras, um diálogo do silêncio, um diálogo do amor.

Quando ouvi essa história me emocionei bastante e eu coração se encheu de uma doçura celestial. E só pude pensar em uma pessoa que, imagino eu, faria exatamente a mesma coisa que esse velho monge: Jesus. Segundo os evangelistas Jesus era alguém que a simplicidade surpreendia. Os gestos amorosos sempre falavam mais que as palavras e sua vida é o exemplo maior disso. E não penso na cruz quando digo isso, penso nas gestos cotidianos, na sensibilidade em lidar com o outro, em servir, em abraçar seus amigos, inimigos e as crianças, em se importar com a condição da mulher naquele tempo e dar a devida visibilidade à elas, em orar pelos inimigos na hora mais difícil de sua vida, em se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram.

Tudo isso demonstra que Jesus era uma pessoa que sabia ouvir. Ele sabia estar no tempo presente ouvindo seus amigos, seguidores, inimigos, curiosos. Para chegar à tamanha sensibilidade Jesus praticou o silêncio.  Jesus sabia ouvir os outros porque ele sabia ouvir o Pai no silêncio. Frequentemente nos relatos bíblicos vemos Jesus se retirando para orar e meditar. E assim compreendemos que a melhor forma de nos conhecermos é quando nos aquietamos e desfrutamos da presença de Deus, numa comunhão fraternalmente sincera, e assim conhecemos mais sobre a doçura da Trindade. Assim regamos as sementes da nossa espiritualidade.

Minha irmã uma vez me disse que muitas vezes a melhor oração é aquela que não é feita. E realmente, muitas vezes é melhor o silêncio na presença de Deus do que as muitas palavras vãs. Jesus mesmo repreendeu aqueles que diziam palavras bonitas mas sem seu coração estar realmente naquilo, e ele os chamava de hipócritas. Tiago nos lembra que devemos ser prontos para ouvir e tardios para falar.  Pensamos que a quantidade de palavras e tempo de oração mede nossa espiritualidade, e muitas vezes falamos e nem ao menos prestamos atenção naquilo que estamos dizendo. Não nos conhecemos, porque não temos tempo para isso, estamos apenas falando sem parar, seja em oração ou com o próximo, e tudo isso é sem significado e sentido.

Precisamos aprender a nos ouvir, nos aquietarmos e nos conhecer. Precisamos aprender a ouvir a Deus, nos aquietarmos e conhecê-lo. Precisamos aprender a ouvir o nosso próximo, nos aquietarmos e conhecê-los. E tudo isso começa com um profundo silêncio. E não é um silêncio vazio, e sim um silêncio transbordante em doçura e sensibilidade. É um silêncio que é diálogo!

Jesus ouviu. E não ouviu apenas as palavras, mas também o silêncio. O silêncio de Deus, o silêncio dos seus discípulos em um momento crítico, o silêncio dos seus seguidores.  Ouviu também os gritos de “crucifica”, os gritos de humilhação, os gritos de ódio por não ser compreendido. Jesus soube ouvir tudo isso, em silêncio. Um silêncio que no momento da crucificação foi quebrado com uma oração: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

Retomo a experiência do meu amigo juntamente com a experiência de Jesus. E assim, me questiono: Esse tem sido meu silêncio? Um silêncio repleto de amor e plenitude? Um silêncio perdoador e reconciliador? Um silêncio de auto-conhecimento? Um silêncio para desfrutar a presença de Deus? Entre muitos outros questionamentos, chego à uma conclusão: Devo aprender ouvir e praticar o silêncio…

Um pensamento sobre “Sobre o silêncio…

  1. É um belo texto, Angelica. Em nosso ministério com as crianças na situação da rua, percebo que elas valorizam mais os momentos que dispusemos de estar em silêncio com eles. Silêncio diz mais do que as palavras. Há momentos para as palavras mas antes de tudo temos que dispor-nos ao ouvir primeiro. Hoje em dia, muitas têm medo de silêncio. Talvez isso esteja pelo fato que eles tenham medo a enfrentar a sua própria limitação e finitude. Precisamos um velho amigo de estar em nosso lado neste momento do silêncio. Mais uma vez, obrigado pelo texto.

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