Intolerância no Dia do Combate à Intolerância Religiosa

A intolerância não tem dia. Mesmo hoje sendo o Dia do Combate à Intolerância Religiosa, fui vítima dessa forma de discriminação.

Eu sou teóloga evangélica. Me formei no ano passado em Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E como pós formada na Universidade estava procurando um emprego e logo me avisaram de uma vaga de professor em um colégio católico franciscano para dar aulas na matéria de ensino religioso. Fui na entrevista no ano passado, tudo ocorreu de maneira maravilhosa; fiquei sabendo que o ensino religioso no colégio era uma “ciências da religião” simplificada e me animei bastante. E nesse ano fui chamada para fazer uma avaliação – mais uma parte do processo de possível contratação. A diretora me elogiou e disse que fui muitíssimo bem, e que me daria a oportunidade de iniciar como professora da disciplina.

Pois bem, iniciei essa semana (18 de janeiro de 2016) e tudo estava bem. Ontem (20/01) fiquei o dia inteiro em um dos colégios para palestra e uma reunião com a pastoral e ensino religioso do colégio. Quando disse que fiz Teologia no Mackenzie (teologia protestante e reformada) as irmãs começaram a me indagar sobre várias questões a respeito da fé, e com um estranhamento perguntaram se eu era católica, e eu disse não: sou cristã de linha evangélica. E as perguntas ficaram mais específicas sobre se eu tinha algum problema com imagens, as festividades, ritos etc. O que obviamente não tenho problemas, pois considero toda a experiência religiosa válida e todas tem o mesmo objetivo: alcançar o Inalcançável, que cada um coloca um nome.

E eis que me surpreendo: hoje (21/01/2016), coincidentemente no Dia do Combate à Intolerância Religiosa, fui demitida por não pertencer a fé católica. Fiquei apenas 4 dias no meu “novo trabalho”, sem ao menos ser avaliada pela qualidade de minhas aulas, sem ao menos considerarem meus conhecimentos do assunto. A ética e o respeito passaram longe daqueles que se dizem seguir os ensinamentos de São Francisco.

É muito frustrante quando sua religião importa mais que sua competência para exercer a atividade. E como teóloga é impossível aguentar calada toda essa situação de intolerância,  situação da qual muitos enfrentam diariamente. É incompreensível alguém julgar a aptidão de uma pessoa por questões de etnia, religião, nação etc.  A intolerância religiosa é definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade.

O que vivenciei no dia de hoje é muito inexplicável. As palavras não conseguem demonstrar a tristeza que me abate, e não apenas por ter acontecido comigo e ter frustrado meus planos, mas por saber que milhares de pessoas passam por isso diariamente. Sofrem caladas, amedrontadas e coagidas por pessoas intolerantes e  querem impor seus dogmas de fé “guela à baixo”. O cristianismo, seja ele católico ou evangélico, perdeu sua essência, a de Jesus. A essência de acolhimento, misericórdia e que não faz acepção de pessoas. Não julga com olhos, mas conhece pelo coração.

A tradição religiosa matou o Sagrado. A ideologia religiosa cegou os povos. E assim vamos vivendo essa vida de incoerência entre palavras e atos.  Manchamos os nomes dos nossos deuses, santos, orixás e outras divindades por não agirmos como eles nos ensinaram. Manchamos o nome do que se diz “humanidade” por simplesmente não agirmos de maneira “humana”.

O Papa Francisco confiou as intenções de oração para janeiro, e as mesmas eram sobre a questão de diálogo inter-religioso e ecumenismo. E ainda nos deixa uma frase que não condiz com a atitude do colégio em questão:

“Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e justiça.”
Papa Francisco

Termino esse post com uma música do Legião Urbana, Anjos:

“Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar

Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice

Stop! Como é que é?
Calma! Como se faz uma receita pra intolerância e a injustiça?
Vamos lá!

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma, untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça, antes de levar ao forno
Temperar com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça

[…]

Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe, mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou, do amor, a falta que ficou”

5 pensamentos sobre “Intolerância no Dia do Combate à Intolerância Religiosa

  1. Angélica aprecio muito sua escrita, conheci o grupo ecumênico direcionado ao padre Bede Griffiths, lá mesmo presenciei uma situação pavorosa, foram acusados de querer inventar uma nova religião. Abençoado será o dia em que crenças e dogmas não importem, que todos trabalhem priorizando o Amor e guardem mais para si suas crenças, sem querer que os outros as sigam. Você escreve tão bem que tenho certeza que encontrará muitas oportunidades, sou formada em Filosofia e tenho visto que para minha área há poucos concursos, mas para a de Ensino Religioso há várias. Se quiser focar na área de Ciências da Religião você poderá falar tranquilamente do diálogo inter-religioso. Abraço.

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  2. Pingback: Intolerância no Dia do Combate à Intolerância Religiosa (por Angélica Tostes, 21/1/2016) | Espiritualidade Libertária

  3. Angélica
    Estou profundamente alegre e solidário com sua indignação. Se a nossa fé não for maior do que as nossas Igrejas, fica devendo muito a Jesus. Estivesse hoje Jesus no nosso meio como esteve, em carne e osso, nos tempos da dominação romana e do poderio de fariseus, saduceus sacerdotes e anciãos, seria, também Ele, barrado nesse colégio católico, pelas Irmãs franciscanas. E com a consciência de estarem fazendo isso em nome de Deus! Como também uma católica ou um católico seriam barrados em tantos colégios evangélicos. Evidentemente que não em todos!… E tudo em nome de Deus, estariam convencidos os responsáveis. Jesus seria barrado! Porque nossas instituições não suportam tamanha abertura, tamanha liberdade! E não temos como viver absolutamente sem instituições, elas fazem parte do nosso modo humano de organizar a vida. Mas sempre acabam assim, voltadas pra si mesmas, ciosas de se garantirem, atentas para não serem contaminadas, como se o outro fosse o joio e elas, o trigo. E veja o absurdo: se a Igreja é católica, ela está se autoproclamando universal, inclusiva, integradora de todos; se a Igreja é evangélica, ela se está explicitando como anunciadora do profundo sem fronteiras de Jesus!
    Não é isso usar o nome de Deus em vão? Supor, preconceituosamente, que a irmã ou que o irmão de outra confissão cristã vá deteriorar, vá deturpar a fé que querem partilhar – a fé em Jesus? Admito que se o caso fosse de aulas de doutrina católica ou de doutrina de alguma confissão religiosa evangélica, não seria adequado que alguém de outra confissão as assumisse, pois a pessoa estaria um tanto dividida, não estaria partilhando uma convicção profunda, não estaria sendo um testemunho firme e transparente do seu modo de crer. Porque seria o caso de doutrina da Instituição…
    Mas, convenhamos, não foi para esse tipo de diferenças que Jesus esteve no nosso meio. Se as Irmãs – ou qualquer “autoridade” de plantão das nossas instituições – lessem com profundidade Marcos 9,38-41, sentir-se-iam densamente contestadas pelo Mestre, frente a uma atitude dessas. Porque o que elas propuseram no colégio, para os alunos em geral, que não têm de ser todos católicos, e têm de ser respeitados em suas diferentes crenças, porque o que elas propuseram não foi um ensino confessional, mas um ensino religioso, mais amplo, que não vá contrariar a sua confissão, mas que tenha um olhar aberto e respeitoso para todas as outras confissões cristãs, e também para os modos de crer não cristãos – todos eles expressões do humano que busca Deus, do humano que é filho de Deus e é por ele abraçado seja lá em que “corte” ele estiver. As religiões são problemas nossos, não são problemas de Deus. Deus é maior do que todas elas! Todas!
    Nessa passagem de Marcos vemos que aquele que rejeita acha-se o dono da verdade, e acha que o outro é um atrevido, inoportuno, um atropelador, um herege, um lobo em pele de cordeiro que precisa ser calado, rechaçado. Esquece-se de que a Verdade é Jesus, e não tem dono. Esquece-se de que Ele olha o coração e não a aparência. Esquece-se de que a questão não é mais de adorar a Deus no monte da Samaria ou em Jerusalém (Jo 4,20-24), mas em espírito e verdade.
    O processo é sempre esse: primeiro me convenço, não importa por qual razão, de que o outro é diferente, e convenço-me sem ouvi-lo, sem dar-lhe a chance de se revelar; depois coloco-lhe o rótulo de diferente, que leio como inimigo e intolerável, e contra o próprio Deus; e posso, então, eliminá-lo. Não foi assim que fez Hitler, não foi assim que fizeram os cristãos, católicos e protestantes com relação aos povos autóctones das Américas e aos povos africanos, não é assim que fazem os fundamentalistas do Estado Islâmico? Como Jesus continua não compreendido!… Não sendo respeitado! Sendo perseguido! Sendo crucificado!
    O testemunho que nos legaram as nossas irmãs e os nossos irmãos das primeiras comunidades cristãs é de que o Mestre amava profundamente os humanos, mas não tinha ilusões com o coração humano, e vinha desafiá-lo a abrir-se, a ser melhor. Isto é tarefa nossa, de cada um, de cada uma, por toda a vida. Mas as instituições têm o grande problema de querer controlar Deus, de querer encaixotá-lo. Mas Deus não é encaixotável!
    Você, Angélica, tem o coração limpo (Mt 5,8) porque está querendo ver a Deus e partilhar essa visão, a que todos têm direito; você está, honesta e radicalmente, buscando construir, edificar a paz (Mt 5,9), como consciente filha de Deus; então você, com toda a probabilidade – e ei-la confirmada! –, você vai acabar sendo insultada e discriminada (Mt 5,11) por causa do próprio Mestre, a quem você se propõe seguir.
    Não vou dizer a você que não desanime, porque você não desanimou. Não vou dizer que não se decepcione, porque também eu estou decepcionado. Mas sem entregar os pontos! Mas vou dizer: feliz a sua indignação, da qual compartilho de coração aberto.
    Como você tem um carinho pelo Papa Francisco, já deve ter percebido que também ele está sendo rejeitado por parte da Igreja católica, também no próprio Vaticano! O pessoal de plantão na instituição é sempre uma complicação. Como o poder sobe à cabeça! Quiseram os sumos sacerdotes banir o Mestre, tirar até Deus do lugar que é dele, tentando colocar-se lá para dizer que Deus está errado. Com tanta misericórdia, com um coração tão aberto, com um tão escancarado testemunho de liberdade, com um amor tão abrangente Jesus atraiu a ira contra si!
    Mais uma ironia, minha irmãzinha Angélica: neste ano de 2016 a Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela Igreja Católica, foi preparada e está sendo encaminhada ecumenicamente, ou seja, está sendo assumida conjuntamente pela Igreja Católica e por várias Igrejas Evangélicas. Certamente que muitos colégios católicos, e provavelmente também o colégio que discriminou você, estarão trabalhando o tema escolhido para este ano e estarão valorizando a questão da abertura, do estarmos juntos, proclamando que o Reino é para todos!…
    No dia em que nossas instituições religiosas realmente se desarmarem e resolverem empenhar-se de fato no que é essencial, nesse dia teremos dado um passo enorme em direção à paz!
    Angélica, pensei escrever-lhe isto em caráter pessoal. Mas acho que este espaço público da sua página virtual é mais adequado, mais urgente e mais digno da nossa fé em comum em Jesus, permanecendo eu católico e você evangélica.
    Com um carinhoso abraço e um respeitoso beijo do seu tio.
    J. Thomaz Filho

    Curtido por 1 pessoa

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