Afrouxando os nós e nos atando a nós: “a mulher virtuosa trabalha de boa vontade”

Que trema o patriarcado. Nem domésticas, nem domesticadas. Nem submissas, nem devotas. Indomésticas”- Trabalhadoras domésticas de Buenos Aires

Compreendendo as linhas da trama

Como falar de economia feminista em um momento que experienciamos abismos cada vez mais profundos deixados pelo neoliberalismo no contexto pandêmico? Voltar a normalidade parece uma utopia no contexto brasileiro, e ao mesmo tempo aquela é a normalidade da qual não devemos voltar, esse mundo “normal” que habitávamos causou tantos sofrimentos, tantas desigualdades, ódio, discriminação, extrativismos, exclusão,violências e fundamentalismos. A normalidade de uma economia extrativista e do capitalismo financeiro tem nos levado à destruição do planeta terra e dos seres vivos, incluindo a humanidade. Lidar com a “normalidade” do modelo neoliberal é encontrar-se com a realidade das precarizações nas leis e direitos trabalhistas, com as privatizações de tudo e todos, com Estados frágeis devido a política do “Estado mínimo” que promove cortes nos setores da saúde e educação e cada vez mais o enfraquecimento dos sindicatos, por fim, o que nos resta, principalmente em países com genocidas no poder, como Brasil e Índia, um colapso nos sistemas de saúde e mais vulnerabilidades para a classe trabalhadora empobrecida. (TRICONTINENTAL, 2020)

E aqui, quando falamos de classe trabalhadora não estamos nos referindo apenas a um termo genérico, estamos falando de corpos, de subjetividades, de desejos e sofrimentos, de milhares de mortes que o vírus, a fome e a violência do Estado tem levado de nós. E o fundamentalismo religioso tem sido uma estrutura nesse desmonte das políticas públicas com os discursos de empreendedorismo, com as repressões do corpo, com a submissão da mulher e a exclusão de todos os dissidentes dos papéis de gênero e sexualidade, atribuindo as injustiças sociais ao castigo de Deus, ao pecado. A companheira e pesquisadora Magali Cunha pontua alguns elementos dos quais o fundamentalismo religioso atua na América do Sul: i) reacionarismo frente aos avanços das pautas de Direitos Humanos e Igualdade Social; ii) a pauta de gênero como bandeira da “salvação da família tradicional”, com discursos pró–vida, anti-gênero e educação sexual nas escolas; iii) o uso religioso para legitimar o projeto sócio-político e econômico capitalista, permeado pelo medo gerado das fake news ; iv) pautas pró-família e anti-gênero que buscam dominar duas frentes,a Educação e o Direito; v) modelo neoliberal, visando o Estado mínimo, para promover o livre mercado; vi) crise do modelo neoliberal, aprofundada em 2020 por conta da pandemia de coronavírus. (CUNHA, 202; TOSTES;CORAZZA, 2021).

No nosso contexto latino-americano e caribenho, pensar a realidade das trabalhadoras na é lidar com um histórico de exploração do corpo de nossas companheiras. E para essa tarefa não podemos desvincular a cicatriz colonial que nos atravessa, a cicatriz do extrativismo de nossas terras, de nossas vidas, dos deslocamentos forçados, da escravidão, dos estupros e do extermínio das comunidades tradicionais em Abya Yala. Corpos que foram submetidos a uma religião outra como meio de dominação da mente, do corpo, da linguagem, dos saberes. O colonialismo está enraizado na premissa da dominação, exploração, exclusão e segregação de sujeitos e territórios, o que não difere do neoliberalismo, que se traduz como um neocolonialismo a serviço do imperialismo.

Trazer o corte da luta de classes é importante para compreender a nossa história, e a Teologia da Libertação nos deixou esse legado. Mas, como a teóloga argentina Marcella Althaus-Reid apontou é preciso ir além, é preciso lidar comesse imaginário de um cristianismo heterossexual que chega à América Latina para reproduzir os modelos de sexo/gênero pela normatividade e controle (2000, p. 12). Entretanto, Marcella pontua: ”A Teologia da Libertação é autoritária. Tem estrutura colonial, da Igreja européia. O pobre é visto como o nativo, a criança, o inocente. Tem de ser pobre e inocente, não pode ser pobre e gay.”

Não podemos falar de economia feminista, sem falar da sexualidade, da biopolítica por detrás desse modelo patriarcal de gerenciamento de vida. Uma vida precarizada na sua dimensão social, econômica, racial, política, religiosa e sexual. Desfazer o “nó” , que Heleieth Saffioti chamou, com os fios do capitalismo, racismo e patriarcado, é necessário para conseguirmos avançar na nossa emancipação do Sul Global. “Os nós da colonialidade são apertados de múltiplas maneiras de acordo com cada corpo, rosto e história.” (TRICONTINENTAL, 2021)

A Teologia da Feminista da Libertação na América Latina não deve ser uma reprodução de saberes hetero-patriarcais, mas como José Carlos Mariátegui apontou acerca do socialismo em nosso território, assim deve ser com a tarefa de repensar modos de teologias e economias feministas: “Não queremos, certamente, que o socialismo seja, na América Latina, decalque nem cópia. Deve ser criação heróica. Temos que dar vida, com nossa própria realidade, em nossa própria linguagem, ao socialismo indo-americano. Aqui está uma missão digna de uma nova geração” (1928). Nossa missão como teólogas feministas é a cada luta afrouxar esses nós, desarticular esses poderes imperialistas contra nosso povo, contra as mulheres em Abya Yala.

A mulher virtuosa trabalha de boa vontade: a simbiose do protestantismo com o capitalismo

Existe uma relação simbiótica entre o capitalismo e a religião protestante foi tema de interesse de Karl Marx, havendo mencionado por diversas vezes na obra O Capital, apontando como o protestantismo contribuiu para a “acumulação primitiva de capital” (LOWY, 2016, p. 37). Essa ideia vai de encontro com o pensamento de Max Weber na obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. E vale notar a linguagem mítico-religiosa de Marx, como aponta Michael Löwy:

Por outro lado, Marx muitas vezes se referia ao capitalismo como “religião do cotidiano” baseada no fetichismo da mercadoria. Descreveu o capital como “um Moloch que exige o mundo inteiro como sacrifício a ele devido” e o progresso capitalista como “um monstruoso deus pagão que só quer beber néctar nos crânios dos mortos” (LÖWY, 2016, p. 37).

Walter Benjamin utiliza a metáfora do parasita, dizendo que “o capitalismo se desenvolveu como um parasita do cristianismo no Ocidente” (2011, p.3). E vai além dizendo que a história do cristianismo, atualmente, é a história do capitalismo, seu parasita. “O período do cristianismo da Reforma não favoreceu o crescimento do capitalismo; ao contrário, se transformou em capitalismo” (BENJAMIN, 2011, p.3)

Com o calvinismo nos deparamos com a valorização do trabalho como vocação de Deus, como ato de adoração e rendimentos de graças. E que deve ser feito com alegria, boa vontade, disciplina. O discurso da meritocracia atual, desse empreendedorismo gospel, bebem nas fontes protestantes e versículos bíblicos que paralisam e desmobilizam a luta de classes. A ideia predestinação e a acumulação de riquezas como sinal da graça de Deus é uma força motriz para manutenção das desigualdades baseadas na religião.

O capitalismo é o fundamentalismo econômico contra a terra, sem a terra, apesar da terra reduzida a “meio de produção”, forma básica de renda e acumulação. No Brasil, não podemos perguntar pela reforma agrária, por outro modelo agrícola. Os fundamentos fundamentais do capitalismo paralisam a interpretação e os meios de comunicação pedem que as maiorias sem-território observem, decorem, repitam, cumpram, obedeçam às verdades eternas da propriedade privada (CARDOSO, 2017).

E quando pensamos no papel das mulheres nessas relações de religião e capitalismo, nos deparamos com múltiplas faces e fases nesse enlace, além das relações de poder entre gênero, raça e classe. As imagens religiosas, construídas através de textos sagrados mas também pela tradição cristã, impõem um único modelo de ser mulher. O texto de Provérbios 31 traz esse imaginário feminino de alguém que a realização está no auxílio do lar e que “trabalha de boa vontade”.

No contexto latino-americano e caribenho, as mulheres foram forçadas a trabalharem, a cuidarem de filhos que não os delas, não amamentando os próprios filhos e filhas para servir a Casa Grande, mulheres que viram seus filhos sendo tirados da sua tribo para adquirirem hábitos, linguagens e comportamentos eurocêntricos e cristãos. E após esse período de colonização, as mulheres, através da religião cristã, deveriam se redimir de seus pecados pela reprodução biológica, e adquirindo características dóceis, domésticas, domesticadas. As teologias feministas latino-americanas buscam romper as amarras coloniais, raciais e heteropatriarcais colocadas nos diversos corpos das nossas companheiras. E entender como essas forças tensionam nossos corpos é necessário para ações eficazes nos desatar esses nós que sufocam nossa potencialidade de vida.

Não é amor, é trabalho não remunerado”: a força de trabalho das mulheres

Para as mulheres, ao adentrarem a um mundo do trabalho remunerado, o que ainda se espera é que as dimensões do lar sejam geridas por elas. Para Flávia Biroli, quando pensamos na divisão sexual do trabalho, ainda lidamos com o que foi e ainda é definido como trabalho de mulher, competência de mulher e lugar de mulher (2018). “Aí reside um nó importante para compreender a subordinação do poder social das mulheres nas sociedades capitalistas modernas” (TRICONTINENTAL, 2021). E cabe a nós resgatar algumas dimensões do trabalho impostas às mulheres no capitalismo: i) reprodução biológica; ii) reprodução social e iii) reprodução ideológica da força de trabalho (TEIXEIRA, 2021). “O trabalho reprodutivo é indispensável para a reprodução social, que implica no acesso e no controle de recursos econômicos de uma geração para outra.” (TEIXEIRA, 2021, p. 49). E quando isso acontece, o compromisso da reprodução social faz com que as mulheres sejam impelidas aos espaços ditos tradicionais, e assim, apresentando uma segregação das mulheres no espaço de trabalho, e que tem impactos para posteridade.

Esses fatores influenciam a baixa taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho. “No primeiro trimestre de 2020, 43,408 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho, com a crise atual, esse número saltou para 50,466 milhões, de acordo com os dados do terceiro trimestre de 2020” (TEIXEIRA, 2021, p. 51). E muitas dessas mulheres são chefes de família, e encontram dificuldades de saírem em busca de trabalho, muitas vezes, por conta da falta de políticas públicas destinadas às mulheres e crianças, como creches. i) E isso impacta muito mais a realidade das mulheres negras, que apresentam “maior vulnerabilidade e maior dependência de políticas públicas (IBGE, 2016)” (TEIXEIRA, 2021, p. 55), fruto de um racismo estrutural no Brasil que mascara a falácia da diversidade racial no país. ii) Vale também ressaltar que as mulheres trans, ao enfrentarem as múltiplas camadas de exclusão que impactam na sua entrada no mercado de trabalho, a começar pela evasão escolar muito maior em mulheres trans do que em homens trans. E segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no Brasil, o país que mais mata trans no mundo, 90% ainda sobrevive com a prostituição como fonte de renda. iii) Outro grupo que sofre as violências sistêmicas são as mulheres imigrantes racializadas, que por muitas vezes são submetidas a trabalho escravo moderno, retendo documentos, explorando ainda mais, ou que encontram no trabalho doméstico sua única forma de sustento e sobrevivência. iv) O quarto grupo de vulnerabilidade são as mulheres com deficiência. Mulheres que, segundo a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, são mais vulneráveis aos riscos de sofrer violências, abusos, maus-tratos e exploração. De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no final de 2020, as pessoas com deficiência foram atingidas severamente pelo desemprego durante a pandemia.

O racismo presente em nossas sociedades fica exposto em sua brutalidade no trabalho doméstico e de cuidados (Moscoso, 2020; Parello Rubio, 2003 e Colectivo IOÉ, 2001). Mulheres, lésbicas, travestis e trans, trabalhadoras empobrecidas e racializadas são as que sustentam essas estruturas perversas. Na atual crise sistêmica, vemos como o capital está conseguindo —uma vez mais — fortalecer seus lugares de domínio e exploração. Machismos, fascismos e racismos são relançados, complexificando seus dispositivos e tecnologias. Múltiplas opressões são moeda comum e corrente e produto da dívida histórica que a pandemia aprofundou: isolando, coisificando, discriminando e abusando de vidas, corpos e direitos fundamentais. (TRICONTINENTAL, 2021)

Dia 27 de Abril foi o dia das trabalhadoras domésticas, Luiza Batista, presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), aponta que a luta por igualdade continua e os impasses são muitos no Brasil:“São Mais de 80 anos de luta e os direitos foram chegando gradativamente, mas ainda hoje, há muitos empregadores que não registram as empregadas e não recolhem o INSS” (CUT). Silvia Federici (2018), o trabalho doméstico é muito mais que a limpeza da casa, é servir fisicamente, emocionalmente e sexualmente a aqueles que ganham o salário. E ainda pontua que sem o trabalho doméstico é impossível o funcionamento do mundo. No capitalismo há o paradoxo que pode ser expresso assim: “ o mesmo tempo que o capital não pode prescindir da força de trabalho das mulheres, ele reforça a exclusão por meio de práticas discriminatórias e excludentes, de ajustes fiscais e políticas de austeridades, como o corte de gastos com saúde, educação, infra estruturas e necessidades básicas, forçando as mulheres a buscar maneiras de compatibilizar a dinâmica produtiva e reprodutiva” (TEIXEIRA, 2021, p. 50).

Claro que a manutenção das mulheres do trabalho reprodutivo e doméstico era e ainda é benéfica aos interesses do capitalismo e do fundamentalismo religioso, Federici pontua que as resistências sempre ocorreram, e “aquelas que ousaram trabalhar fora do lar, em um espaço público e para o mercado, foram representadas como megeras sexualmente agressivas ou até mesmo como ‘putas’ ou ‘bruxas’.” (2017, 189-190). A filósofa, então, destaca o termo “patriarcado do salário”, que faz referência a imposição do salário para o trabalho dito como produtivo e a exclusão do trabalho doméstico nessa relação, ou seja, a dominação das mulheres frente a autoridade masculina do poder financeiro (2018). Para a teóloga Nancy Cardoso: “O que emancipa as mulheres não é o capitalismo Pelo contrário: é a luta do operariado, dos trabalhadores dentro do capitalismo, na sua organização, que viabilizou diversos processos emancipatórios” (2015, 142).

A teóloga Ivone Gebara, discorre que “a desigualdade no exercício do poder e a injusta divisão social do trabalho continuam como uma visível expressão da desigualdade antropológica e da desigualdade de direitos nas instituições da religião” (GEBARA, 2017, p. 183). Ana Raquel Rosa do Couto, integrante do Movimento Negro Evangélico do Rio de Janeiro, avalia como são essas processos dentro das igrejas, pensando a partir da relação das mulheres negras que sofrem as consequências do racismo estrutural presente em todos os campos da sociedade.

“Nós, mulheres pretas, correspondemos à maioria das frequentadoras da igreja evangélica. Somos tão necessárias, por gerir a vida em toda sociedade (…) Como mulheres, somos invisibilizadas nos lugares de “esposa do pastor”, “tia da cantina” ou “zeladora da igreja”, ministérios ligados à arte e ao cuidado das crianças, ministério de dança, backing vocal dos grupos de louvor… Enfim, espaços que tendem a conferir pouco protagonismo e, com frequência, são considerados em segundo plano, ou apenas com caráter de complementaridade. Tais posições dentro dos ministérios só refletem como somos vistas.” (2021, p. 120-121)

O lugar e o trabalho das mulheres dentro das instituições eclesiásticas é subalternizado, ainda mais para a realidade das mulheres negras nas igrejas. Vale lembrar, que no Brasil, embora o rosto midiático seja dos pastores brancos-héteros-ricos-velhos-raivosos, a verdadeira face do movimento evangélico aqui é da mulher negra, pobre e periférica (DATAFOLHA, 2020).

Em nome do amor a Deus, do amor à família, as mulheres são submetidas ao trabalho do cuidado e doméstico em seus lares, quase como algo compulsório, e dentro das igrejas, onde suas palavras não têm peso nas decisões dentro da instituição. A palavra de ordem “o que chamam de amor é trabalho não pago”, estampada nos murais da Argentina nas greve feministas, pode ser aplicada ao trabalho das mulheres nas igrejas, que sustentam toda a base, seja na igreja católica ou evangélica, entretanto, não são consideradas iguais pela liderança masculina. Para a teóloga afro-brasileira Cleusa Caldeira, essas divisões são estruturadas nas hierarquias raciais e colonizadoras: “O colonialismo, que opera por meio do racismo, é antes de tudo um projeto coordenado de desumanização, com uma capacidade incrível de se atualizar; cuja essência consiste na negação da condição humana do outro com base na racialização.” (2021)

Economias feministas: tecendo caminhos

Enquanto as múltiplas opressões se enroscam em nós, em emaranhados de aço pontiagudo, que ferem propositalmente toda a forma de vida. As feministas latino-americanas tecem e bordam caminhos para uma economia solidária, visando a oikumene, ecumenismo, palavra que vem da mesma raíz de economia, oikos. A pandemia deixou mais evidente como as desigualdades e injustiças estavam fervilhando, mostrando a vulnerabilidade dos corpos expostos a jornadas de trabalhos infindáveis, que tem as raízes de um colonialismo heteropatriarcal, jornadas remuneradas e não remuneradas, sendo fora ou dentro do ambiente do lar (TRICONTINENTAL, 2021). A crise que vivemos, pelas lentes feministas, é uma crise multidimensional, colocando em risco os processos vitais da vida. Se constitui como uma crise ecológica, crise de reprodução social desde o Sul Global e crise das intervenções imperialistas desde o Norte Global aos países em Abya Yala. Nancy Cardoso já anunciava: “o Sul do mundo produz conhecimento e não só cultura, melhor dizendo, um conhecimento cultura que se alimenta de saberes não-colonizados e anti-sistêmicos – que chamamos de Sumak Kawsay ou Bien Vivir.” (2018)

Quando buscamos alternativas econômicas feministas, estamos indo de encontro a autonomia econômica das mulheres, a construção de igualdade entre homens e mulheres e também transformações sociais nas políticas públicas, como escolas, creches. Gerir o mundo pela economia feminista das mulheres “é uma recusa ao modelo vigente, que reforça a responsabilidade individual das mulheres pelo cuidado com as crianças, e é também indispensável para a entrada e permanência das mulheres no mercado de trabalho.” (COELHO; ROURE, 2014, p. 82).

O processo de solidariedade feminista, de um feminismo comunitário, na América Latina e Caribe implica na decolonização dos saberes, entre eles, os conceitos teóricos sobre economia. Uma economia feminista rompe os sacríficios impostos pela eterna liturgia do capital, uma liturgia de morte, uma liturgia da necropolítica que sacrifica os corpos matáveis para manter a adoraçao de Moloch.

Considerações finais

Nós tecemos economia a partir da luta pela terra, pela soberania alimentar, pelos direitos a creche e escolas com qualidade, a saúde pública, pelo direito sexual e reprodutivo das mulheres, pela ousadia de sonhar, realizar, gozar. Romper os laços, nós, amarras desse sistema de morte, de extrativismo da terra, do estupro da terra e de nós mesmas. Quebrando os grilhões do capital, do lucro e da exploração. E nos atando a nós mesmas, a nossa luta, a nossa solidariedade internacionalista! Como diria o velho canto: Somos América Latina, um povo sem pernas mas que caminha! Caminhemos, tecendo saberes, sabores e estradas para nós e nossas irmãs. Afinal: “O Espírito da Ruah está sobre nós, porque ela nos ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ela nos enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da cegueira egoísta, para libertar os oprimidos e oprimidas e proclamar o ano da Graça”. Lucas 4:18,19

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