quando as mulheres oram…

em algum lugar do mundo – em muitos -, nesse exato momento, alguma mulher ora. com velas, incenso, cruzes, imagens, santos e santas, em silêncio, com música, mantra. deitada na cama, ajoelhada no chão, deitada no chão. juntas, todas, oram. para sua deidade, para seu deus, seu santo, virgem maria, pachamama, orixás, para si mesma… oram!

as mulheres oram com as lágrimas das águas do ganges e águas do rio jordão emanam de seus suores misturados com sangue. as rezas antigas, batendo o pé no chão. as mulheres oram apontando para baixo, para terra que dá o pão.

a fome e o desespero. a tensão, a atenção. viver com os olhos arregalados, dificilmente uma mulher ora com os olhos fechados. os físicos podem até estar, mas o interno, o olho que sente o mundo, este está aberto até quando dorme. as mulheres oram os olhos abertos, por medo. o medo da incerteza da vida, o medo da bala perdida, o medo do assédio, do descaso, da morte. nossos olhos abertos, atentos, suplicam que a terra nos proteja, pois do céu, muitas vezes, vem a opressão.

minhas ervas secando no vento. saúdo minhas ancestrais e seus ensinos. absorvo seus eus nas linhas do infinito e aprendo mais de mim, mais delas. nas palavras proferidas, orações são construídas. o sangue no batente clama por justiça. as mãos, dedos finos, desnutridos, desnudados denunciam os açoites, a voz rouca ainda grita por socorro. olhar para os montes já não basta.

curandeiras do mundo, no caldeirão a porção de vida, a poção da liberdade. feita da terra e pela terra. criaturas que oram, mulheres orantes. madrugadas com a luz acesa, rezando pelo filho, pela filha, por todos os filhos e filhas do mundo. benze com as folhas, abre a bíblia, acende a vela pro santo de cabeça, dá o passe! abençoe o ventre mesmo quando inexistente, ventre da mulher não é físico, ventre da mulher é a mente que sente.

cozinha da prece, feitiços nas texturas. o sabor do acarajé é tem o tempero da reza. as folhas só crescem com a adubação da oração. de vez em quando a fé não dá conta, e a chuva destrói a plantação. terra, terra, a vida tá difícil. só quero colher para não morrer.

as mãos calejadas, as mãos enrugadas. as toalhas que secam no varal e a torneira a gotejar. as mulheres sentem o canto dos pássaros como sua própria voz.

quando as mulheres oram juntas as instituições religiosas se amedrontam. oração que se faz profecia, denúncia, mudança. a desarticulação das mulheres é o triunfo do hétero-patriarcalismo racista. e só pela oração que as mulheres podem se unir. oração da vida. para algum deus? não. para a terra, para a manifestação da vida, para nós mesmas.

orar é nos proteger com palavras quando as nossas mãos não conseguem.

quando as mulheres oram novos mundos são gestados…

3c966d_de007672a53244ffb8ee81a434a3ff1c_mv2

               The Weight of Our History, Paula Nicho Cumez, 2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s