as ausências necessárias

há tempos venho pensando em escrever sobre as ausências. talvez seja pela necessidade de justificar muitas das minhas ausências nesses últimos tempos, ou para apenas refletir sobre a ausência como necessidade. acho que ambos. justificar minhas ausências pela necessidade de me ausentar. em um tempo em que está sendo imposto a ausência como estratégia de sobrevivência, acho que pode ser interessante mergulhar um pouco mais nessas águas. me ausentei de muita coisa. disse muitos nãos por esses tempos. sai de grupos de whatsapp, até mesmo de grupos de amigxs. não fui em eventos, passeatas, protestos, diálogos. nem em templos ou igrejas. tive que me ausentar de mim para me encontrar. a angelica estava atrapalhando a angelica. precisei dar um tempo dela.

ano passado comecei a cultivar plantas. aprendo um bocado. esses dias falava com a minha mãe sobre. minha hortelã estava lindona tempos atrás. um arbusto hortelanístico. e aos poucos, sem eu perceber, foi definhando. não entendi como, quando, onde, porquê. fiz o que sempre faço: húmus de minhoca. ela está recuperando depois de um mês e meio. até consegui fazer duas mudas. a gente também é assim, quando menos percebemos, acabamos por secar e murchar.

a espiritualidade é meu húmus de minhoca. minha vivência hindu-cristã me inspira a lidar com a vida de uma maneira especial. porém, me sinto em um não-lugar, ou melhor, em um entre-lugar. sim, claro, as potencialidades são muitas, mas ainda assim, é um não-lugar. não sou uma. sou muitas. e sei que em um mundo de identidades fixas isso pode ser um tanto quanto complicado na hora de definir quem é angelica tostes. não se preocupem, nem eu sei como definir, aliás, nem quero. sigo no meu não-saber de mim mesma, e no meu não-saber divino. desfruto dessa prasāda e da eucaristia da mística inter-religiosa.

com a pandemia muitos dos meus projetos tiveram que ser adiados, e alguns foram cancelados. o gita diz que o verdadeiro yogui é aquele que tem ouro em uma mão, terra em outra, e não faz distinção entre as duas. dizem que sri ramakrishna fazia isso como exercício: colocava prata e barro nas mãos e jogava aos pés do ganges. encontrar a equanimidade não é uma tarefa simples. compreender que as coisas são transitórias, as presenças e as ausências. desapegar do fruto da nossa ação. experimento o cálice das contingências.

ser ausente, às vezes, é necessário. não entenda como arrogância ou apenas um distanciamento. eu compreendo bartleby e repito: eu preferiria não. quando não há nada para partilhar, acolho o silêncio. me recuso a sucumbir à lógica da produtividade. me recuso a ter opinião de tudo. me recuso. me desculpe, eu preferiria não.

o tempo de ausência quarentenal-quaresmal pode ser o húmus, a água, o bálsamo para o encontro de si. para que a gente não atrapalhe mais a gente. segurar o ouro e o pó. jogar ao vento. encontrar a sabedoria no vazio, na ausência divina que se faz presente através de corpos divinamente humanos. a vida é sopro. passa. nosso eu imutável permanece e se une a deus. mas no fundo, a gente passa. e todos, passarinhos.

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