Noções de polidoxia em Bede Griffiths

Deus é sopro, vento incontrolável, brisa leve, RUAH. Nossa religião, igreja, credo, livro sagrado não detém a potência e criatividade divina. Mas o que é polidoxia? Para a teóloga Kwok Pui-Lan polidoxia é “a ideia de que os cristãos não têm monopólio da revelação de Deus, e que a divindade deveria ser compreendida em termos de multiplicidade, irrestringibilidade e relacionalidade” (PUI-LAN, 2015, p. 74). Quando se acredita que apenas a sua própria religião é que a salva, é a verdadeira ou superior em relação as outras, se cria um espírito de intolerância e preconceito. Verdades fechadas e exclusivas acabam por minar a pluralidade dentro da própria tradição religiosa.

A polidoxia insiste que nenhuma teologia ou credo pode exaurir o sentido de Deus e alegar infalibilidade doutrinal. […] A polidoxia partilha a afinidade com a teologia apofática, que insiste que a natureza de Deus não pode ser plenamente descrita, e que só podemos falar a respeito do que Deus não é, em vez de sobre o que Deus é (PUI-LAN, 2015, p. 75-76)

Para Claudio de Oliveira Ribeiro, a noção de polidoxia está além das categorias ditocômicas (ortodoxia/heresia). Ela desmarcara o fantasma do pensamento único, abre portas e janelas para um diálogo inter-religioso e cultural autêntico, “realça as compreensões de fé e as práticas religiosas em termos de multiplicidade, irrestringibilidade e relacionalidade” (RIBEIRO, 2018, p. 30). Essa noção, embora não nomeada dessa maneira, é encontrada em Bede Griffiths, pois seu entendimento dos símbolos sagrados perpassa um aspecto do inalcançável pela mente humana, impossível de definição. Em seu livro O Retorno ao Centro (1992), Griffiths trabalha diversos aspectos do diálogo inter-religioso em pequenos ensaios. Um desses ensaios é chamado ‘Um só Espírito em Toda Religião”, o qual ele trabalha a religião como tendo uma só essência, uma só Última Realidade, para ele

Em cada tradição essa Realidade divina uma, a Verdade eterna, se acha presenta, mas oculta em símbolos de palavras e gestos, rituais de dança e canso, poesia e música, arte e arquitetura, costumes e convenções, leis e moralidades, filosofia e teologia. O Divino Mistério está sempre oculto por um véu, mas cada revelação (literalmente, tirar o véu) descobre algum aspecto da verdade uma, ou se preferem, o véu se torna mais transparente num certo ponto (GRIFFITHS, 1992, p. 82)

Muito desse pensamento é inspirado na importante doutrina jainista chamada Anekāntavāda (अनेकान्तवाद), que significa, não-absolutismo, muitas faces da verdade Essa doutrina pode ser explicada pela parábola do elefante e os cinco cegos, nessa parábola os cinco cegos (que nesse caso representa os cinco sentidos) tocam as partes do elefante e descrevem como se fosse o todo, que o elefante é a orelha, ou pernas, ou rabo. Nesse sentido, entendemos que a parte não abrange o todo e nem pode ser considerada uma verdade completa, porém contém aspectos da verdade (syādvāda) e a maneira de olhar algo, podendo ser o Divino, é infinita (naya) (DUNDAS, 2004, p. 97).

Para Bede Griffiths: “Só podemos penetrar o véu por meditação sobre o Mistério, não por palavras ou pensamentos” (1992, p. 84). E é nesse sentido que Griffiths afirma: “Portanto, além de ser cristão, eu preciso ser um hindu, um budista, um jainista, zoroatrista, Skih, mulçumano e judeu. Só assim poderei conhecer a Verdade e encontrar o ponto de reconciliação em todas as religiões” (1992, p. 83).

Kwok Pui-Lan, então, pensa a polidoxia como o não-monopólio do Divino, essa ideia encontra-se nitidamente com os escritos de Griffiths

O cristão, pertença ele à Igreja que pertencer, não pode ter a pretensão de deter o monopólio da Verdade. Todos somos peregrinos em busca da verdade, da realidade, da realização final. Mas precisamos reconhecer que essa Verdade estará sempre além de nossa compreensão. Nenhuma ciência, filosofia ou teologia poderão jamais abarcar a Verdade. Nenhuma poesia, arte ou instituição humana podem contê-la em si. Os grandes mitos são apenas reflexos na imaginação humana daquele mistério transcendente (2000, p. 177)

Encarar o Divino como o Mistério da Vida, substituir as certezas e acabamentos por dúvidas e infinitude, compreender que a nossa razão não consegue captar. A polidoxia entende, assim como o teólogo Raimon Panikkar disse que “aquele que não conhece senão sua própria religião, não a conhece verdadeiramente. É necessário que se conheça ao menos uma outra religião diversa para poder situar em verdade o conhecimento profundo da religião professada” (1998, p. 74). A noção de polidoxia abre mais o espaço para o diálogo inter-religioso, pois afrouxa as noções das identidades religiosas e gera uma alteridade mais plena para a peregrinação da Última Realidade das religiões.

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Referências

PUI-LAN, Kwok.  Globalização, gênero e construção da paz: o futuro do diálogo interfé. São Paulo: Paulus, 2015.

RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Espiritualidades contemporâneas e direitos humanos / Claudio de Oliveira Ribeiro (org.) – São Paulo: Edições Terceira Via, 2018.

GRIFFITHS, Bede. Retorno ao Centro: O Conhecimento da verdade – o ponto de reconciliação de todas as religiões. São Paulo: Editora Ibrasa, 1992.

________________. Casamento do Oriente com o Ocidente: Hinduísmo E Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2000.

DUNDAS, Paul. Beyond Anekantavada: A Jain Approach to Religious Tolerance. Ahimsa, Anekanta, and Jainism, p. 123-136, 2004.

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