uma vela ao vento não tem paz

eu me lembro de como meus dedos ficavam ao colher amoras: todos pintados de rosa. a árvore era tão alta que atirávamos coisas nos galhos lá longe e colhíamos as que caiam ao chão. enchi um chapéu de amoras e comi como se fosse a primeira vez que desfrutava desse doce sabor. acho que ás vezes é preciso viver a vida como se fosse a primeira vez. um primeiro beijo. uma primeira mordida de pizza. uma primeira chuva. quem me dera isso ser tarefa fácil. sabe, acho que estamos numa fase de muitos embates e estamos perdendo as pequenas alegrias. nossa vida se reduziu ao enfrentamento e não degustamos mais os sabores de viver, não criamos mais. quando penso nas amoras penso nos amores que perdemos pela negligência do tempo. estamos reagindo sem pensar, mas não acho que estamos agindo. a ação requer reflexão, inação. uma vela ao vento não tem paz. o som do piano toca minha alma como quando fui abençoada por uma linda senhora na jamaica. temos tempo para ouvir o piano do mundo? o samsara nos prende e nos enrolamos nos fios de maya. só vivemos a ilusão. as redes sociais nos jogam nessa rede pegajosa das aparências de ser. na sociedade do espetáculo. esse mundo me cansa. é como correr atrás do vento diz o sábio. há um capital para além do dinheiro, um capital simbólico da visibilidade, e é um perigo para todos nós entrarmos nesse jogo de egos que guerreiam entre si por uma causa nobre. me recuso. enquanto construo ideias, sonhos, pensamentos e reflexões quero repousar sobre a grama ainda úmida e sentir o aroma de sândalo invadindo meus pulmões. acordei como em um susto e me vi em um labirinto em que servia aos senhores das aparências, em que as faces mudam conforme o número de likes cresce. minha senhora, me recuso a dizer coisas que as pessoas querem ouvir. há sujeiras que impregnam, mas com as águas divinas lavamos nossos pés e voltamos aos caminhos que somos chamados. a voz ressoa. quem conhece ouve. ela é um murmúrio que lembra a lenha sendo queimada pelo fogo. confesso que não sei para onde estou indo, mas será que isso realmente importa? a travessia tem me ensinado tanto, mas os caminhos são tortuosos, difíceis. a vida é sofrimento, temos esse ensinamento há milênios. mas tem sua beleza, suas pequenas salvações. a noite escura da alma sempre tem algo para nos ensinar. e os processos de aprendizagens nunca podem ser apressados. se perder é também se encontrar. e encontrar tantas outras paixões, desejos, pessoas, talentos. minha vela, hoje, ainda não tem paz. muitos ventos estão fazendo que sua chama cintile e a luz esteja fraca. mas vai passar. como tudo. como o dia, a noite, o vento, as estações e eu mesma. passamos. e o que fica? pouco importa. importa como temos feito a travessia – e que seja com um prato de amoras e uma xícara de chá.

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