as memórias de feitiços&artes&histórias

todo artista tem um pouco de mágico. brincar com os elementos e criar! eis a grande delícia da magia de ser artista. me considero mais feiticeira do que artista. talvez seja porque assim sempre me vi. ao colocar o robe rosa não era mais angelica, era alicia. “alicia dort/ un bouquet de violettes/ des serpents à sonnettes/ dansent dans sa tête”. o vento era meu elemento. controlava-o com um feitiço simples, infantil, mas poderoso: “vento que sopra. e as árvores balançam. e as bexigas voam”. era sempre bonito ver as bexigas voando ao céu, e as pitangas do vizinho caindo na piscina de plástico no verão em são paulo, enquanto o peixe estava sendo frito e as risadas rolavam com as minhas irmãs.

sempre fui feiticeira. feiticeira de encantos que colecionava recortes de  animais em um livro que fiz de folha sulfite. construtora de lares em caixas de papelão. enquanto uns outros feiticeiros faziam água virar vinho, minha magia era de fazer cola com farinha e água. e dava certo. construía a minha própria casa, meu próprio eu com farinha e água. sempre construí coisas com as mãos. é como se elas tivessem vida própria e não conseguissem ficar paradas (ainda hoje é assim): desenhos mágicos que expressavam meus sentimentos. monstros de papelão. princesas em rolos de papel higiênico. transformava lixo em brinquedo. caixas de leite em prédios. assim como o mágico que cuspiu na terra e curou o cego, misturava vinagre, bicarbonato e tudo mais que encontrava pela frente até explodir. tem coisa mais mística que ver a reação química de elementos se entrelaçando? fazia alquimias do cotidiano, como de fazer fogueiras com palito de fósforo. ou das sacolas que viravam pipas no ar e ziguezagueavam pelo céu.

devia ter uns 7 anos. e dona lourdes, vizinha, passou lá para conversar com minha mãe. mas ela não estava em casa. atendi a porta e começamos a conversar. não me lembro o que conversamos, confesso. só lembro que entrei em casa e fui pegar um banquinho para me sentar enquanto conversávamos no quintal, eu do lado de dentro de casa e ela na rua. separadas por um portão e muitos anos de idade. dona lourdes tinha dois cachorros, um deles chamava “tufiki”, pelo menos era assim que ouvíamos os gritos quando ele não parava de latir. ela veio do nordeste e passou muitos perrengues quando veio para são paulo, lembro-me que contou, que chegou a dormir com saco de lixo para se esquentar.

quando aprendi a ler me encontrei nos livros. vivi os livros. fui para o egito e grécia. me encontrava com os deuses e deusas e dançava com eles. a magia sempre me seguiu como eu a sempre segui. uma voz que nos guia. de outras vidas? talvez. mas sempre fui feiticeira. dizem que as feiticeiras manejam bem as palavras e delas constroem e destroem mundos. feiticeiras são contadoras de histórias e sempre fui uma dessas pessoas. contadora de histórias, como no big fish. contava histórias para mim mesma. histórias de vampiros e bruxas. sabe quem é o melhor amigo de uma feiticeira? eu sei! o lobo mau. e ele era meu amigo. vivia na caixa d’agua de onde estudei o jardim 1. desde lá contava histórias, lembro que contei que vi uma sereia na praia para amiguinhas, sem nunca ter ido à praia. isso foi uma mentira? pode ser considerada. mas eu vi uma sereia – só não sei onde. e quem me visitava toda noite era o zorro. ele vinha pela luz. era só olhar diretamente para a luz de casa e logo o via.

minha vida é permeada pela magia desde sempre. o vento sempre soprou em mim. não consegui controlar, mas ele me controla. e juntos aprendemos os passos da música mística que é a vida. sabe, adoro as formas geométricas, as mandalas, que formam dentro do nosso olho antes de dormir. sempre gostei. o oculto, o mágico, o mistério sempre me atraíram. não é de agora. a angelica sempre foi a feiticeira que tenta encantar e consertar o mundo de alguma maneira, seja com histórias de bexigas que voam em céu azul e das chuvas de pitangas que mergulham em piscinas de plástico, seja com cola de farinha e água, um pouco de durex, papelão e tinta. minhas mãos de bruxa, com dedos tortos e roliços, mas muito amor (e algumas panquecas quentinhas).

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