A mulher sangra

A mulher sangra. Todo mês. Toda semana. Todos os dias. Alguma mulher sangra. Esse sangue emana do seu corpo, dos seus orifícios, das suas lágrimas e suores. A mulher sangra em seu coração que através das inúmeras exclusões sofre. A mulher sangra na cama – marca da santidade ou marca da promiscuidade. A mulher sangra parindo: parindo existências humanas, divinas e utópicas. A mulher sangra por não parir: sangue mensal da destruição e renovação ou sangue do aborto doloroso. A mulher sangra com a violência, racismo e controle: sangra até morrer. A mulher sangra. Não por opção!

O foco do sangue sempre esteve presente na tradição cristã. Pelo sangue somos redimidos, eles dizem. Porém, o que a tradição faz com o sangue das mulheres? Silencia. O sangue da mulher vertido por vós é negligenciado, calado, caluniado. Partilho um poema da teóloga feminista indo-alemã Gabriele Dietrich, uma tradução livre:

Eu sou uma mulher
e o sangue dos meus sacrifícios
clama pelo céu
o qual vocês chamam de paraíso.
Estou farta dos seus sacerdotes
que nunca sangram
e ainda dizem:
Este é meu corpo
partido por vós
e esse meu sangue
derramado por vós
bebei-o.
Que sangue
tem sido derramado
pela vida
desde a eternidade?
Estou farta dos seus sacerdotes
que regulam o Garbhagriha*
que adoram o ventre
como a fonte da vida
e continuam me fazer gritar
porque meu sangue
é poluidor.
Eu sou uma mulher
e meu sangue
clama.
Somos milhões
e juntas, fortes.
é melhor você nos ouvir
ou vocês podem estar condenados.
Gabriele Dietrich (2010, p. 74, 75)

*santuário dos templos hindus

 “O que é mesmo meu corpo? Meu corpo sou eu, minha história, minhas circunstâncias, minhas escolhas, meus pensamentos, meus medos, meus erros, meus prazeres e minhas dores. Hoje dizemos isso, embora saibamos que a grande maioria dos corpos de mulheres continua sendo definida a partir dos corpos masculinos, dos corpos de poder, das autoridades políticas, dos líderes da economia e da moda, das autoridades das religiões. E, nessa espécie de “produção” de corpos para os outros e pelos outros fomos acordando para uma série de conflitos e contradições que nos habitava; querendo sair das prisões que preparavam para nós, denunciamos os horrores que coletivamente nos atingiam” (GEBARA, 2017, p. 80)

Mulheres, Religião e Poder ou, como bem conversei com a Ivone semana passada e ela disse, sonhos e pesadelos das mulheres. Sonhos esses que por muitas vezes custaram sangue de mulheres, sonhos de liberdade da mente e do corpo, sonhos que levaram a serem acusadas de loucas, bruxas, libertinas. Sonhos de loucas, bruxas e libertinas. Sonhos da sexualidade livre e não mais objetivada. Sonhos do prazer. Sonhos de uma comunidade de fé plural. Sonhos de um corpo não aprisionado. Sonhos e pesadelos se entrelaçam, pois para as mulheres sonharem é preciso enfrentar os pesadelos!

 “Furamos o teto das Igrejas e não nos querem mais dentro. Por isso, enredam-nos com suas falas sobre fidelidade à Tradição, com seus textos rigidamente interpretados, com sua propaganda teológica enganosa… Ou, mentem em público nos chamando de levianas, superficiais e ilusionistas, a nós que apenas queremos acender novas lâmpadas para iluminar a própria vida.” (GEBARA, 2017, p. 30)

Furar o teto não é tarefa fácil… e mais uma vez cortamos as nossas mãos e nosso sangue escorre, se derrama, se partilha em prol da construção de uma sociedade de igualitária. Sangue que se derrama por não querer mais “nascer de “costelas” masculinas, ser expulsas do paraíso, ser proibidas de comer frutos do conhecimento, acolher o destino de chorar nossos filhos mortos numa cruz e nas muitas guerras inventadas” (GEBARA, 2017, p. 31). A reação desse movimento corporal é a das mais diversas: “Queimaram-nos em fogueiras, encarceraram nossos corpos, rasgaram nossos textos, ocultaram nossos poemas, duvidaram da qualidade de nossas dúvidas” (GEBARA, 2017, p. 32).

Ser mulher é ter a semente da transgressão, do gozo, da liberdade e desobediência. É preciso transgredir, desobedecer, desestabilizar a ordem vigente. É nas margens do ser mulher e nas suas fronteiras que nós somos potenciais para desativar os dispositivos do poder hierárquico e criar uma comunidade que vem, nova, livre, leve. E é a partir dessa transgressão que Ivone sopra ventos de uma teologia libertária, feminista, do corpo que sente… e se renova! Toca no queer, na indecência, puxa as saias de Deus e descobre sua transgressão!  Na complexidade de Deus e “A complexidade dos seres humanos se impõe a cada dia fazendo-nos perguntar sempre de novo sobre quem dizemos que somos e o que queremos ser” (GEBARA, 2017, p. 201).

Nosso complexo corpo se movimenta, rompendo tudo o que o amarra, rasgando as vestes da tradição, corpo que é fluidez, descoberta e liberdade. Corpo que é corpo com outro corpos e constrói uma corporeidade divinamente própria. Que cada gota de sangue das nossas mulheres nos tornem mais mulheres. A mulher que se torna, se torna dona de si, da sua história, das suas escolhas, da sua fé – não mais enclausurada pelas paredes escuras da Igreja, mas que faz buracos, destrói tetos, muros, altares, e constrói um espaço sem paredes, aberto, livre, colorido e iluminado, onde o vento do Espírito areja e rega as flores que crescem com os encontros dos corpos.

A MULHER QUE ME TORNEI
(por Anna P.)

A mulher que eu me tornei sabe que o orgasmo é dela, e por isso o oferece facilmente. A mulher que eu me tornei é atraente: fora do quarto e da casa, também existe sexualmente. A mulher que eu me tornei ama sem amo, goza e não usa, dá e não cede. Toda a sua dimensão tem tesão. Não esquenta no fogão e nem esfria na pia: ela é antimonogamia. Não é anódina ou mofina, nem pesada e nem franzina – a mulher que eu me tornei é bailarina. A mulher que eu me tornei tem uma existência criativa, a mulher que eu me tornei goza com a vida. Se exibe de calcinha, cavalga o homem olhando, fala imundícies, trepa sorrindo, goza gritando. A mulher que eu me tornei goza só imaginando. A mulher que eu me tornei goza chupando…

 

OREVILLO-MONTENEGRO, Muriel. Jesus Of Asian Women (the). Concept Publishing Company, 2010.
GEBARA, Ivone. Mulher, poder e religião: ensaios feministas. São Paulo: Edições Terceira Via, 2017
P., Anna. Tudo que eu pensei mas não falei na noite passada. São Paulo: Hedra, 2014.

*Apresentação para o Lançamento do livro “Mulher, poder e religião: ensaios feministas” em São Paulo, 14/04/2018.

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