sobres os ipês amarelos da índia

Cecília tem me acompanhado nessa aventura. Temos conversado bastante sobre as folhas que são varridas e as folhas que são levadas ao vento. Ah, prefiro ser levada ao vento e ver onde posso chegar do que ser varrida para um lugar já estabelecido. Aqui tem ipês amarelos! Fiquei feliz em vê-los e em recordar do meu lar, da minha irmã que tanto ama essa árvore e também de um camarada chamado Rubem Alves que era conhecido como “um homem que gosta de ipês-amarelos”. Cecília sentou comigo debaixo do ipê amarelo. Com nossos pés descalços sentimos as gotas de orvalho encharcando nossos pés – que sensação boa quando somos purificados pela natureza. Os pés são muito importantes – caso você não saiba, vou lhe dizer: Os pés possuem poderes mágicos: podem nos levar a onde quisermos. Mas tem que querer, pois nada fazem sozinhos. Ouvi dizer que os deuses e deusas tem pés de lótus. Pés que não se contaminam com as impurezas desse nosso mundão, mas pés que pisam essa terra orvalhada e sentem as contradições do mundo. No fundo, todos tínhamos que ter pés de lótus: pisar e saber que vamos passar, desapegar, desapisar.

“As solas dos teus pés.
As solas dos teus pés pintadas de vermelho.

De teus pés correndo no verde chão do parque.

As solas dos teus pés brilhando e desaparecendo
sob a orla dourada da seda azul.

(A moça brincava sozinha,
bailava assim, por entre as árvores…)

[…]

As solas dos teus pés, pintadas de vermelho,
duas pétalas no tempo.
Duas pétalas rolando para o fim do mundo, ah!

[…]”

AH! Quero correr lentamente, é possível? Contemplar a cada instante e pisar com meus pés vermelhos essa terra que me acolhe. Aqui me sinto em casa. Bem, talvez tenha me esquecido de dizer que os ipês amarelos me lembraram uma canção antiga e muito importante para mim. O tema do desapego me fez lembrar dela – já que falei dos ipês para você nessa amorosa carta, deixo também essa poesia:

“Contemplo o rio, que corre parado
E a dançarina de pedra que evolui
Completamente sem metas, sentado
Não tenho sido e eu sou não serei nem fui
A mente quer ser, mas querendo erra
Pois só sem desejos é que se vive o agora
Vede o pé de ypê, apenasmente flora
Revolucionariamente
Apenso ao pé da serra”

Talvez essa dançarina de pedra parada possa ser a mesma com as solas dos pés vermelhos – talvez não nessa vida, talvez não nessa realidade. Ou talvez Belchior e Cecília tenham tido a mesma visão do ipê, da moça dançando, do Rubem Alves contemplando e eu lá debaixo apenas sentada, parada, sendo.

Com amor,

Angelica

 

Hyderabad, 2018

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