Desnudando a teologia

Fazer teologia é tarefa de sujar as mãos e pisar na terra. É cultivar palavras para compor belezas. Teologia dos sentidos. Do apalpar, do ouvir os pássaros , do comer e beber, do sentir o aroma das flores, do olhar curioso, de andar com o pobre, órfão, viúva e necessitado. A verdadeira teologia se faz na presença e não nas palavras. As palavras são insignificantes, talvez por isso Jesus não deixou nada escrito. Ele compreendeu que a teologia, que já tem esse nome que dá medo, não se faz na academia em meio aos livros, mas sim na mesa, no partir do pão, no compartilhar da vida, enfim… nas coisas simples.

Teologia do cotidiano, do pingado na padaria antes do trabalho, da cerveja na sexta-feira com os amigos, do fritar de um ovo,  do brincar e cantar com o sobrinho, das crises de risos, do sofrer por amor, do choro da perda, dos ônibus e trânsito. Teologia é coisa simples, mas nós, teólogxs, é que gostamos de complicar. Usar palavras difíceis, vocabulário robusto: prolegomena, pneumatologia, escatologia, soteriologia etc. Assim, a teologia se distancia da realidade e se torna inútil.

Qual a utilidade do teólogo? Faço essa pergunta quase que diariamente. Sem obter nenhuma resposta plenamente satisfatória. Já respondi muita coisa sobre o motivo de ser teóloga, hoje já não sei bem o que diria. Mas uma coisa tenho aprendido nesses últimos tempos: a boa teologia serve para libertar os que estão sendo oprimidos pela religiosidade vazia. Serve como um machado para destruir a velha e carcomida religiosidade e teologia clássica. E para isso é necessário um processo de transformação da teologia.

A teologia deve ser desnudada. Deve se despir de sua roupagem antiquada, das vestimentas pesadas da tradição, dos tecidos que servem para cobrir o que deve ser mostrado. A teologia deve ser sensual e sensorial. Deve ser corpo que dança em êxtase, deve ser a festa e comemoração da liberdade, deve se embriagar no vinho da vida. A verdadeira teologia liberta o Cristo dos religiosos, da teologia clássica, dos fundamentalistas. O deixa livre para ser quem é: esse ser de amor e liberdade.

Temos que despir a teologia! Deixá-la nua para que possa mostrar sua verdadeira faceta, deixá-la respirar sem as nossas amarras intelectuais. Só assim a teologia, que já se distanciou da realidade da vida, pode se tornar útil novamente. Saindo das bibliotecas, da acadêmia, dos livros, dos artigos e ir para o mundo, abrindo suas tendas e habitando e lutando com o povo e pelo povo.

A construção da teologia deve ser a mesma da poesia: se fazer das “coisas insignificantes”. Deve aprender a gostar das “das coisinhas do chão- / Antes que das coisas celestiais”, deve ter “um olhar para baixo”,  usar das “palavras apenas para compor silêncios” diante do Mistério da Vida, como a poesia simples e da vida de Manoel de Barros. A teologia deve ser desnudada da metafísica e lidar com a física, com o corpo a corpo, com o pé na terra, as mãos tateando a vida. É a “Palavra… se feitas de carne” (Nancy Cardoso).

Termino essa breve reflexão, que foi inspirada pela obra do Manoel de Barros: “Meu quintal é maior do que o mundo”,  com um poema de sua autoria:

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogios.”

Tratado geral das grandezas do ínfimo, Manoel de Barros

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Um pensamento sobre “Desnudando a teologia

  1. Bela reflexão. Num sentido sou tradicionalista. Concordo com sua critica sobre o uso da teologia clássica sem reflexão,ou seja, sem uma ligação com vida cotidiana. Porém creio que teologia é uma participação dum dialogo eterno.Entramos neste no meio e precisamos conhecer o que foi discutir e como devemos abordar ou não abordar as questões dependendo muito das atitudes dos teólogos. Enfim, creio que é preciso ouvir os teólogos clássicos( por mim esses são teólogos além da reforma, não sou protestante) para contribuir melhor na busca dum espiritualidade autentica. Sou tradicionalista neste sentido mas não creio que precisamos ficar presos na doutrinas que foram desenvolvidas na base deste teólogos.

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