As mulheres e o diálogo inter-religioso – Parte 1

 As mulheres e o diálogo inter-religioso 

A temática do diálogo inter-religioso é algo que me interessa muito. No meio de tantas leituras, uma pergunta pairou na minha mente: onde estão as mulheres do diálogo inter-religioso? Pelas as aparências, o diálogo inter-religioso é conduzido por homens e pelos homens. As grandes imagens dos encontros são homens, líderes religiosos, com suas vestes litúrgicas, propagando solidariedade e respeito das diferentes crenças. Isso também acontece no mundo acadêmico e teológico: as grandes publicações, volumes, artigos, são predominantemente masculinos. Mas, como destaca a teóloga Catherine Cornille, não é nada surpreendente. Pois, de longe a liderança da maioria das religiões continua sendo predominantemente masculina, portanto, é esperado que as mulheres estejam ausentes ou sub-representadas nos oficiais diálogos inter-religiosos (CORNILLE, 2013, p. 1).

Mesmo as mulheres não sendo as grandes porta-vozes do diálogo inter-religioso no mundo “público”, muitas mulheres estão na atividade de promover o diálogo e a colaboração entre as religiões de diversas formas. Criando grupos de estudos ecumênicos, compartilhando sua fé e luta diária.

Mulheres dialogando

Elisabeth Schmitz (1983-1977).

A primeira mulher que quero ressaltar aqui é a pastora protestante Elisabeth Schmitz (1983-1977). Ela foi ignorada durante muito tempo e recentemente foi resgatada desse silêncio histórico. Schmitz rejeitou o antissemitismo e trabalhou arduamente para o seu fim, o que comprometeu toda sua trajetória. Entre 1923 e 1938 ela trabalhou como professora de literatura alemã, história e ensino religioso em Berlim. Ela estudou sob a supervisão de Adolf von Harnack, grande figura da teologia liberal, e sua dissertação foi orientada pelo renomado historiador Friedrich Meinecke em Berlim. Em 1920 ela participou do seminário privado de Harnack e se tornou grande amiga de sua filha, Elisabet. Seu filosemitismo veio de seu reconhecimento de que o Judaísmo era essencial para a fundação do Cristianismo, e por essa razão, se por nenhuma outra, os judeus precisavam de respeito e proteção (BARTROP, 2016, 248). Em 1934 ela se juntou ao Confessing Church e se comprometeu a ajudar os judeus perseguidos. Nesse ano iniciou trocas cartas com o teólogo suíço Karl Barth. Ela pedia para que ele denunciasse o que estava acontecendo com os judeus e ser posicionar contra o nazismo. (BARTROP, 2016, 249). Em 1935 ela escreveu um memorando sobre o que estava se passando com os judeus na Alemanha. Descreveu os ocorridos e constrangeu a Igreja Cristã a se posicionar contra esse tipo de atrocidade. Ela demonstrou como o antissemitismo foi institucionalizado e socializado, envolvendo a todas as esferas da vida: educação, religião, política e relações pessoais. (BARTROP, 2016, 249). Ela escreveu:

“Nos últimos dois anos e meio uma perseguição severa tem infligido numa porção de nosso povo por causa da sua raça de origem, incluindo uma parcela da nossa própria paróquia. As vítimas dessa perseguição têm sofrido uma aflição terrível, exteriormente e interiormente, mas isso não é amplamente conhecido, o que torna a culpa do povo alemão o mais repreensível. ” ( apud BARTROP, 2016, 249) *tradução nossa.

Por décadas ela foi uma heroína esquecida. Ela apenas foi redescoberta nos últimos 15 anos pelo historiador Manfred Galius, que publicou sua biografia em 2010. Em 2011 ela foi postumamente honrada como “Justa entre as nações” pelo Jerusalem Holocaust Memorial “Yad va-Shem”. (PANGRITZ, 2016, 162)

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Gertrud Luckner (1900-1995)

Gertrud Luckner nasceu em Liverpool, Inglaterra em 1900. Seus pais eram alemães e então, ela viveu desde sua infância da Alemanha. Estudou economia com especialização em bem-estar social nas universidades Königsberg, Birmingham, Inglaterra (na faculdade Quaker para o trabalho religioso e social), Frankfurt e Freiburg. Em Freiburg, que obteve seu doutorado, em 1938. Se aprofundou nos desempregados do Reino Unido. Fez trabalhos voluntários como capelã nas favelas de Birmingham, e segundo ela, foi lá que conheceu o preconceito, racismo e anti-semitismo. (FETUCHOWSKI, 1999).

Luckner se interessou precocemente pelo bem-estar social e pela solidariedade internacional, e esse interesse durou todos os anos de sua vida. Ela se tornou membro do Movimento Alemão dos Católicos pela Paz, fundado em 1919. (FETUCHOWSKI,  1999, p. 8). Desde 1933 se envolveu com a organização católica chamada Cáritas em Freiburg. E após o início da Segunda Guerra Mundial, Luckner organiza o Kirchliche Kriegshilfsstelle (Escritório para o Alívio da guerra religiosa) no seio da Associação Cáritas. Conforme a guerra foi avançando, a organização foi tomando força e tornou-se um instrumento dos católicos de Freiburg para ajudar os “não-arianos”, que incluía judeus e cristãos. (Yad Vashem)

“Sua religião era o ecumenismo. E no período em que ela falava sobre, o ecumenismo não era um programa sancionado pelas autoridades eclesiásticas. Para ela era o método vital para se achegar de uma pessoa para outra “von Mensch zu Mensch,” expressão favorita de Luckner, a qual ela trabalhou magicamente. A crença de Gertrude Luckner estava tão enraizada que ela não precisava de nenhuma alusão específica – considerando quantas questões práticas ocuparam sua atenção” (FETUCHOWSKI,  1999, p. 9). *tradução nossa.

Luckner foi a voz profética de seu tempo. Não só a voz como as mãos! Ela foi a força motriz por trás deste esforço de ajudar os perseguidos do nazismo, usando o dinheiro que ela recebeu do arcebispo para contrabandear judeus ao longo da fronteira da Suíça e para passar mensagens da comunidade judaica dos acontecimentos.

Em 5 de novembro de 1943, ela foi presa em um trem pela Gestapo e levada ao campo de concentração de Ravensbrück. Ela passou dezenove meses lá até que houve a libertação do campo em 03 de maio de 1945.

Após a guerra, Luckner dedicou-se à causa da construção de pontes entre judeus e cristãos. A convite do rabino Leo Baeck, o qual ele manteve contato nos últimos anos da perseguição, ela visitou Israel em 1951, um dos primeiros alemães a fazê-lo.

Em 15 de fevereiro de 1966, Yad Vashem decidiu reconhecer Gertrud Luckner como “Justa entre as nações”.

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Daughters of Abraham – Women’s Interfaith Book Groups

Ressalto aqui um grupo de mulheres chamadas Daughters of Abraham – Women’s Interfaith Book Groups (Filhas de Abraão – Grupo de livro das mulheres inter-religiosas). Nesse grupo mulheres judias, cristãs e muçulmanas se encontram para aprofundar o conhecimento próprio e os conhecimentos nas outras tradições. Através de livros que ensinam mais sobre as outras crenças, aprender sobras as práticas das respectivas religiões e tem o objetivo de aumentar o respeito das religiões abraamicas. E além disso, estão comprometidas umas com as outras construindo relacionamentos entre elas. São pequenos grupos como este que as mulheres encontram o espaço na vida do diálogo inter-religioso.

Há diversos livros recomendados nas respectivas religiões para serem lidos, orientações para começar um grupo, como: ter representantes das três religiões. Elas listam 8 princípios para o diálogo inter-religioso (adaptado de Leonard Swidler, “Me Dialogue Decalogue”)

  1. Entre no diálogo para que você possa aprender e crescer; para não alterar o outro.
  2. Toda pessoa deve ser honesta e sincera, mesmo que isso signifique desconfortos com a sua própria tradição ou a do outro. Todas devem assumir que todo mundo está sendo igualmente honesta e sincera.
  3. Todas devem ter a possibilidade de definir a sua própria experiência religiosa e identidade, e isto deve ser respeitado por outros.
  4. Não se sinta que você é o porta-voz de toda a sua tradição de fé ou que você deveria alguma forma de saber tudo o que há para saber sobre ela. Admita qualquer confusão ou incerteza que você pode ter, se uma pergunta intrigante surgir.
  5. Não assuma antecipadamente onde pontos de concordância ou discordância existirá.
  6. Todas devem estar dispostas a ser autocrítica.
  7. Todas devem se esforçar para experimentar a fé do outro “de dentro” e estar preparado para ver se de forma diferente, como resultado de uma perspectiva “de fora”.
  8. A confiança é uma obrigação.

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Para a introdução da temática cito essas mulheres que se dedicaram, e se dedicam, ao diálogo inter-religioso e sua ação prática. São mulheres que inspiram a luta diária, inspiram a não se calar perante a uma sociedade injusta, que não se conformam com o preconceito e discriminação, que trazem a paz onde há guerra. Há muitas outras mulheres que também estão engajadas no diálogo inter-religioso, e se possível, comentarei em breve sobre elas.

Para a segunda parte do texto, clique aqui.

Bibliografia

BARTROP, Paul R. Resisting the Holocaust: Upstanders, Partisans, and Survivors: Upstanders, Partisans and Survivors. Santa Barbara: ABC-CLIO, LCC, 2016.

CORNILLE, Catherine; MAXEY, Jillian.  Women and Interreligious Dialogue. Oregon: Wipf and Stock Publishers, 2013.

FETUCHOWSKI, Elizabeth Teshuvah Institute Papers, “Ministers of Compassion during the Nazi Period: Gertrud Luckner and Raoul Wallenberg,” edited by Lawrence E. Frizzell. South Orange, NJ: The Institute of Judaeo-Christian Studies, 1999.

PANGRITZ, Andreas. “Dietrich Bonhoeffer and the Jews in the context.” In MAWSON, Michael;  ZIEGLER, Philip G.  Org. Christ, Church and World: New Studies in Bonhoeffer’s Theology and Ethics. New York: Bloomsbury Publishing, 2016.

Yad Vashem. “Gertrud Luckner”-Germany Visto < http://www.yadvashem.org/yv/en/righteous/stories/luckner.asp > Acesso  < 21 de jun de 2016 >

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