Samuel Beckett e o absurdo da vida

O mundo do teatro sempre me encantou. Lembro que a primeira peça de teatro que assisti foi Panos e Lendas, estava na primeira série do fundamental, devia ter um 6 anos de idade. Lembro até hoje algumas histórias e canções dessa peça, que me despertou para a magia da arte teatral.

E em 2011 pude aprender e experimentar essa magia mais de perto. Fiz um curso de teatro de duração de um ano no Teatro Ruth Escobar. A emoção de subir no palco em todas as aulas, as músicas antes de começar as aulas, foi bem marcante. Lições para vida pude tirar dessa experiência fantástica.

E após o curso comecei a pesquisar dramaturgos e a ler mais a respeito. Por influência indireta de um querido professor de geografia do fundamental, Cláudio Duarte, conheci um dos meus pensadores preferidos: Samuel Beckett.

SAMUEL BECKETT

Samuel Beckett nasceu na cidade de Foxrock (Irlanda) em 13 de abril de 1906. Foi um escritor, dramaturgo, poeta e diretor de teatro. Viveu na França durante a maior parte de sua vida adulta. Em 1923, ingressa no Trinity College de Dublin, para se formar em Literatura Moderna, especializando-se em Francês e Italiano. Em 1928, meses após sua mudança para Paris, conhece James Joyce, apresentado por um amigo em comum. Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1969 com a peça Esperando Godot e é considerado um grande pensador do século XX e o pai do Teatro do Absurdo.

“O Teatro do Absurdo expressa a angústia e o desespero que nascem da admissão de que o homem é cercado por áreas de escuridão impenetrável, de que não pode nunca conhecer sua verdadeira natureza nem seu objetivo, e que ninguém lhe poderá fornecer regras de conduta pré-fabricadas” (ESSLIN, 1961, p. 370).

Suas obras contam com um minimalismo textual, críticas a modernidade, existencialismo e um ácido senso de humor. Seus personagens estão sempre em busca de algo que falta, embora não saibam o que é esse “algo”. Tanto as peças quanto os romances tratam da condição humana desesperadora, mas tudo de uma maneira cômica que exagera nos gestos quando a linguagem não é suficiente.

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ESPERANDO GODOT

Minha obra favorita de Beckett é Esperando Godot. É um diálogo-monólogo que se repete sobre a mesma temática: esperar Godot.

 “Quando, em En Attendant Godot, se levanta o pano, o público vê uma paisagem inteiramente vazia; só há, no meio, uma árvore solitária. Esse vazio é povoado por dois vagabundos, Estragon e Vladimir, que pararam ali para esperar um certo Godot: não sabem quando ele chegará, nem sequer sabem por que esperam. Mas estão esperando Godot. Já estão ligeiramente desesperando e desesperados, até de viver, pois não poderiam viver sem Godot. Mas ele prometeu chegar. E este é o pretexto dos dois para viver juntos e esperar juntos. Por que juntos? Tampouco sabem. De vez em quando, um deles já tentou separar-se do outro, talvez fazendo uma espécie de excursão. Mas sempre volta. Nada feito. Só resta esperar. Até quando? Perguntam. Ninguém responde. A paisagem e o céu continuam vazios. Não acontece nada (“Rien se passe”). O única fato é este: esperam.” (, 2009)

Com apenas 4 personagens, uma paisagem minimalista, diálogos travados, tudo gira em torno da espera. A espera daquilo que não conhecem, no novo, da promessa uma vez feita. Beckett denominou sua obra de “tragicomédia em dois atos”, embora o segundo ato seja praticamente idêntico ao primeiro, Beckett explica que foi importante para criar a esperança que Godot viria. “No tragicômico tudo está cinzento, mas no fim o céu se abre. Mas em Beckett acontece o contrário: tudo parece leve, a gente ri das trapalhadas dos personagens, mas no fim percebemos que a luz não chega.”

 

GodotSamuel Beckett pendant une répétition de En attendant Godot, 1961, © Photo Roger Pic © Départment des Arts du Spectacle – Biblioth que nationale de France

A ESPERANÇA

O absurdo da vida é ela ser um absurdo. Godot. A esperança. O que dá sentido a jornada da vida. Godot representa tudo o que possa nos tirar da condição humana que nos encontramos. Para Vladimir e Estragon a vinda de Godot é a revelação do sentido da existência. Eles falam, sonham, brincam.. tudo para passar o tempo… tempo esse de espera e contentamento.

Esperamos. Mas não sabemos o quê. Esperamos. Mas não sabemos o porquê.

“A essência da esperança é estabelecer a fé num resultado final, num sentido definitivo e exitoso da condição humana, é a transcendência divina o princípio que a anima”  (GIROLA, 2011).  Para Beckett essa esperança nunca virá e somos fadados ao absurdo existencialista da vida.

A palavra Godot é uma brincadeira com a palavra God, Deus. Esse Deus que é oculto, incognoscível, que está além da sabedoria e linguagem humana. Beckett, em um diálogo com Haroldo Hobson, cita Agostinho: “Há uma frase maravilhosa em Santo Agostinho: Não desespere, pois um dos ladrões foi salvo; não presuma, pois um dos ladrões foi condenado”. A incerteza é uma característica facilmente encontrada nas obras de Beckett, e no Esperando Godot é o centro da trama.

A dependência da esperança nos paralisa. Esperamos que tudo melhore, mas muitas vezes esperamos parados, como as personagens da peça. Vladimir e Estragon não agiam mais, pois apenas a vinda de Godot é o que era a aspiração e sentido de ser. Não podemos conhecer Godot, não sabemos se ele realmente existe ou não, se ele vem ou se a espera é inútil. Que a espera de Godot, seja lá o que ele for para cada um de nós, nos motive a ser a esperança que queremos encontrar.

Se temos que ter esperança? Não sei. Mas por via das dúvidas, como diria um amigo, “devemos fazer a nossa própria esperança”.

 

ESTRAGON. – O que fazemos agora?
VLADIMIR. – Esperar.
ESTRAGON. – Esperar.

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