Bede Griffiths: o diálogo entre o hinduísmo e cristianismo

Após iniciar as minhas pesquisas acadêmicas com a Bhakti-Yoga me interessei bastante por meditação. Nessas pesquisas senti muita falta de ter o cristianismo envolto à essa prática, que é tão benéfica em todos os aspectos, até que encontrei algumas coisas bem interessantes como, por exemplo, o Hesicasmo.

Mas mais que teologias passadas, estava em busca de algo que fosse contemporâneo e aí encontrei o WCCM (The World Community for Christian Meditation). Li bastante textos do John Main, Laurance Freeman e Thomas Merton, todos eles monges católicos. Muito legal e interessante, recomendo a leitura e que conheçam essas três homens muito esclarecidos.

O foco hoje é para um homem que tem me influenciado e ajudado muito: Bede Griffiths. Conheci ele através do WCCM, pois na loja online vende o livro Rio de Compaixão: um comentário Cristão ao Bhagavad-Gita. O Bhagavad-Gita faz parte de um poema épico denominado Mahabharata. provavelmente escrito entre o século 3 antes de Cristo. Este foi o livro que inspirou Mahatma Gandhi e a sua luta, e ele próprio comentou e traduziu do sânscrito para o inglês a obra. O Bhagavad-Gita é um patrimônio cultural-religioso mundial.

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“Bede Griffiths sempre acreditou haver uma tradição comum de ensinamentos de sabedoria na humanidade, e os frutos dessa crença ficam evidentes nesta memorável e exclusiva leitura que ele faz de uma escritura que tanto amava: o Bhagavad Gita. Assim como o Dalai Lama comentou os Evangelhos à luz do budismo, Dom Bede comenta neste livro o Bhagavad Gita à luz do cristianismo, trazendo de maneira semelhante as verdades universais e atemporais desse belíssimo texto sagrado.

A lição de Bede Griffiths em Rio de Compaixão é que nós também podemos nos aproximar daquilo que aparentemente consideramos estranho e alheio, naquela rápida e primeira impressão (muitas vezes um tanto superficial), para de repente, num segundo momento, sentirmos uma profunda familiaridade e nos maravilharmos com aquilo que Aristóteles dizia ser o início de todo conhecimento verdadeiro: o espanto.” – Dom Laurence Freeman OSB 

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Bede Griffiths (1906-1993) nasceu como Alan Richard Griffiths numa família britânica de classe média, porém após seu nascimento seu pai faliu financeiramente, mudando completamente o padrão de vida da família, que era composta por mais três irmãos além de Griffiths.

Estudou Letras e Filosofia na Universidade de Oxford e durante seu terceiro ano conheceu o C.S. Lewis, que primeiro virou seu tutor e depois seu grande amigo durante a vida toda. Estudou também Jornalismo, que contribui muito para a tarefa de escrever doze livros acerca do diálogo hindu-cristão, sendo uma ponte entre o Ocidente e Oriente.

Em 1932 ingressou no mosteiro beneditino de Prinknash Abbey, onde recebeu o nome de Bede, que significa “prece”. Ordenado sacerdote em 1940 e passou um tempo na abadia da Escócia. 1955 mudou-se para Bangalore, Índia e em 1958 ajudou a implantar um mosteiro de rito siríaco em Kerala – Kristaya Sanyasa Samaj, Kurisumala Ashram (Montanha da Cruz). Em 1968 mudou-se para o Ashram Shantivanam (Floresta da Paz) em Tamil Nadu, que havia sido fundado em 1950 pelo monge beneditino francês Henry Le Saux.

Griffiths estudou profundamente a religião e a cultura hindu. Ainda que permanecesse monge beneditino, ele adotou as vestes cor de laranja da vida monástica hindu e o nome devocional Dhayananda, que significa “bem-aventurança da compaixão”, comprovando seu diálogo com o hinduísmo.

Sob sua liderança, Shativanam tornou-se um centro de vida contemplativa e de diálogo inter-religioso. Morreu em 1993, com 86 anos.

Destaco aqui algumas citações do Bede Griffiths:

“Nada existe em nossa natureza que não possa ser transformado.”

“Construímos escolas e hospitais que mantêm o funcionamento do atual sistema social, mas não nos perguntamos se esse mesmo sistema não é essencialmente injusto, de modo que boa parte do trabalho esteja sendo feito para perpetuar um sistema social injusto.”

” “Que o sábio não perturbe o insensato.” Não deveríamos sair por aí amolando as pessoas. O ideal hindu é o de que o sábio não deve sair por aí procurando mudar as pessoas. Ele vive sua própria vida, em pureza interior, e realiza todas as suas ações sem apego. Portanto, ele se constitui em exemplo para os outros, sem perturbá-los deliberadamente.”

“Voltamo-nos para Deus, recebendo a iluminação e o poder do espírito de Deus ou voltamo-nos para o mundo, para gradativamente nos alienarmos do espírito.”

“Quanto mais o indivíduo se aprofunda, verticalmente, em direção a Deus, mais lhe deveria ser possível sair em todas as direções horizontais, em direção à humanidade.”

“Enquanto houve qualquer divisão em nós, haverá conflito em nossas ações.”

“Podemos aprender todos os Vedas, sem discernir sua essência, ou estudar toda a Bíblia do começo ao fim, sem conhecer o Verbo de Deus. Só a iluminação do espírito nos possibilita chegar ao verdadeiro conhecimento.”

Um monge inspirador e que deixa um legado de diálogo, respeito e contemplação 22 anos depois de sua morte. Infelizmente no ano em que nasci ele faleceu, seria extraordinário conhecer uma pessoa com essa sabedoria, simplicidade e espiritualidade.

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3 pensamentos sobre “Bede Griffiths: o diálogo entre o hinduísmo e cristianismo

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