tenho fugido da materialidade das palavras. escrevo textos diariamente na minha mente – gosto como esqueço deles no instante que o ônibus vira a esquina para chegar à minha rua.
tenho, ao mesmo tempo, desenhado como há anos não fazia: já escrevi uma vez que quando me faltam palavras eu desenho. hábito de criança – rabiscar para ouvir, nesse caso, ouvir a mim mesma.
e na verdade, verdade mesmo, não tem me faltado as palavras, mas sim tem um excesso de palavras que escorrem, palavras doídas em um mundo doido e doído. já nem sei mais do que poderia escrever quando tudo se é urgente.
deito no chão como aconchego, mesmo que frio e duro, para me regular. a respiração sempre é uma boa aliada, principalmente quando as minhas costas doem – assim como as minhas palavras de textos não escritos, mas textos pensados.
segurei o sentir: não recomendo. mas foi lá, em um mosteiro do século dois, no meio do deserto, que veio todos os sentimentos do mundo. internos e externos. só pude silenciar e chorar em meio aquelas paredes antigas que carregavam as orações mais profundas que nunca ouvi, mas senti seu eco, senti seu cheiro, senti seu sabor, senti eu mesma em muitas vidas que já fui e sou, senti suas palavras sussurradas.
assim como as minhas, que de tão engasgadas se tornam alergias em minha pele. pequenas bolinhas vermelhas que espalham por todo rosto, e com o choro e suor, arde como uma lembrança de que esvaziar é preciso, não apenas quando se chega ao limite, mas todo dia.
todo dia um canteiro de flores é regado por lágrimas salgadas, que como ondas, inundam, a conta gotas, a terra.
crio pequenos rituais – meus vários tipos de chás e suas várias formas distintas de preparo: cada gole reponho a água que vaza dos poros e olhos. a quentura que me entende. eu que não gosto de calor, gosto desse mormaço que embaça meus óculos. assim como gosto da quentura da sauna, desnudos de si, deixando vazar, escorrer, suar – não apenas quando se chega ao limite – e por fim, o choque de temperatura quando mergulho no frio.
eu queria ter feito um texto sobre a importância da pausa, mas não consegui pausar para escrever. parece até uma piada, de mau gosto na minha visão, mas é verdade. a sauna foi uma pausa necessária que graças a um amigo, vendo minha inquietude, me convidou-obrigou como um ato de urgência de voltar a mim.
devotar a mim as flores amarelas que amo. devotar a mim a xícara de chá quente no método mais inovador que aprendi – gongfu tea. devotar a mim o espaço vazio no meio dos olhos para que veja o que está além. aham brahmasmi. as velas, o caldeirão, o incenso que queima: fios e mais fios vermelhos esparramados no tapete do universo que apontam mil caminhos de volta.
não prometo nada, apenas uma água quente com erva forte.
um silêncio.um olhar.
e talvez,
algum texto escrito com palavras
ou não.
